segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Last Year



Eu estava descendo a rua apressada por viver aquela noite. De mãos dadas com quem me segurava forte, mas sem pretenção própria. O plano da noite era voltado pro suéter quieto e inseguro.
Numa daquelas esquinas cheias, e igual como todas as outras, um tropeço me colocou em frente com um erro de quinze dias atrás. E quem mente paga, paga caro. E quem ouve a mentira fica com o troco. Duas palavras gaguejadas, uma simpatia de última hora e eu já nem sabia mais no que pensar. Retomei aquelas ideias de destino e de que haveria reencontro se ele fosse necessário e justo. E houve. Completamente despreparado e indevido.
Por dígitos a menos, quatro se tornaram três na mesa do bar. A reserva pra trinta pessoas foi em vão e logo a noite parecia outra. Tinha que ser outra. 
Uma fila enorme se estendia à esquerda da casa com sacada. Alguém disse que aquele seria o dia, e sobrou quem concordasse. Casa cheia, contagem regressiva. O brinde no bar e já não havia amanhã. Como um grito de guerra que precede a vida a ser vivida. E foi. 
Música boa e gente demais pra assunto bom de menos. Encostar elimina e implorar só piora. Cinema, bom gosto e nada que mude minha vida. Até aparecer um nome estranho, que não mudou nada mas chegou perto disso. Um assunto prepotente, interessante mas insuficiente. Até que me deram as costas, numa timidez mal educada, mais prepotente, mais interessante e quase suficiente. 
Uma conversa tão previsível, tão fantasiada. E a música boa que nos levou pra pista. Open up my eager eyes. Cinquenta ideias num segundo. O assunto não podia acabar, e eu precisava voltar. O espaço era pequeno e ainda assim todos haviam sumido. De longe eu via quem eu queria ver, já duvidando encontrar reciprocidade. Outros cinquenta pensamentos pra ter, e logo o único mal idealizado veio à mente. Ponto final, erro cometido.
Eu continuava precisando encontrar uma companhia e teve de ser a voz rouca prestes a acabar. Enquanto o olhar me buscava de cima. E eu pensava mil vezes por que é que eu era tão pouco esperta. Não é por ser você, aquele ou outro qualquer. É o não poder ter, o desafio e a renúncia. As palavras acabaram, os argumentos e a voz. Alguém tinha de vir resolver aquilo tudo. E veio. 
A reprovação e a aprovação de mãos dadas, numa festa prestes a acabar, sorrindo sem pensar que aquilo ainda era totalmente errado. Torcicolo, o clichê e a mesma conversa de quinze dias atrás. E eu devia, de novo acreditar naquilo. A luz negra tira toda e qualquer racionalidade em perceber as mentiras e falsas intenções. Ele não ia ligar nem que quisesse, odiava aquilo.
Subi a rua pensando que havia vivido em dobro: pelo errado e pelo quase certo. Dessa vez sem crer na carochinha, por ter, antes de mais nada, quebrado o sapatinho de cristal e ter entrado direto na abóbora. 

Era pura teoria. Mas a prática foi quase infalível. Não ligou. Nunca disse que ligaria. Mas escreveu. E não parou mais.
Outras vozes me ligaram, muitas outras palavras me foram escritas e eu pronunciei tantos outros verbos aleatórios. Inúmeras tentativas de viver metade do que seria possível. 

Last year. To happen in this year. To live this year. To be now. To love today. Next year.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Time cures heart

(Da série que não deveria ter data e nunca chegará ao fim)
Já era a segunda vez na semana que ela entrava na locadora de vídeos para buscar o mesmo filme. Até olhou para as outras prateleiras, mas em pouco tempo decidiu que queria ver aquele, novamente. A capa era um colorido desbotado mas não trazia nenhum desenho que chamasse a atenção, não exatamente como os hollywoodianos.
O balconista começou a comentar sobre os lançamentos que tinham acabado de chegar e ainda tinham unidades na prateleira. Apontou para os cartazes às suas costas, com aquelas luzes circulando constantemente. Carros em alta velocidade, apocalipses, histórias de amor em plena noite de natal e uma boa dose de filmes com sangue e espíritos. Mas ele a conhecia bem. Mesmo quando não era seu turno ele via no sistema que aquele filme estava locado, por ela, claro. E nunca conseguiu entender exatamente porquê a repetição.
Ele se lembra de algumas vezes em que ela optou pelo lançamento comentado do mês, ou por um clássico consagrado e cheio de traças. Porém consegue contar com poucas dezenas quantas vezes isso realmente aconteceu. "Esse, de novo?" Ele já nem tinha vergonha mais de questioná-la.
"A trilha sonora é... Tão boa!". Ela respondeu sem se importar enquanto levantava os ombros como quem não vê outra resposta mais óbvia para dar. Ela já nem se preocupava em falar o código de matrícula ou mostrar a carteirinha de sócia - que na verdade nem sabia aonde tinha ido parar. Enquanto ele registrava o filme ela esperava ansiosa, batendo o pé esquerdo no chão, no mesmo ritmo do dvd que estava passando na loja. Não era falta de paciência, era o costume de quem já nem percebe os movimentos mecânicos de abrir a caixa, passar o código de barras, imprimir o comprovante, aliás, por que ele sempre circulava a data de entrega?
Ela já nem pedia mais a sacola plástica, quando colocavam o filme dentro ela tratava de tirar e levá-lo na mão. A caixinha sempre ia no banco do passageiro, ocupando com propriedade o lugar que deveria ser de alguém. O papel do encarte, meio amassado nas bordas a irritava em alguns dias. A vontade era de arrancá-lo do plástico e arremessar pela janela, talvez com a caixa junto. Deixando somente o dvd meio gasto, apoiado no veludo do banco do carro.
Algum dia o aparelho vai reproduzir o filme antes mesmo do dvd ser colocado. Até os objetos inanimados acabam por viciar nos atos repetitivos de quem insiste em compreender. Sentada com as pernas cruzadas sobre o sofá ela folheava o caderno bege, surrado, com uns rabiscos que ela mesma titubeava em entender.
Os diálogos eram os mesmos, o personagem continuava naquela jaqueta surrada. A trilha sonora era simplesmente incrível, e não havia nada de errado. Exceto pelo fim. Sempre aquele trem correndo pelos trilhos, a menina desesperada e os passageiros sem entender como alguém poderia ter chegado àquele ponto. Deixá-la sentar não poderia mudar muita coisa, mas quem sabe amenizaria o momento de dor. Ilusão.
E quando o filme começava a mostrar os créditos finais ela voltava. Revia as partes principais, em câmera lenta. Como quem tenta encontrar uma palavra sussurrada, ou um vulto ao fundo que pudesse ser subliminar. Mas o que ela entendia uma vez, nunca se repetia. A palavra que aparecia escrita nas nuvens, simplesmente sumia quando ela acionava o repeat. Nada se repetia, exceto o fim.
Sim. Ela também teve a ilustre ideia de copiar o dvd, comprá-lo ou não devolvê-lo nunca mais, pouco sentido havia nas repetidas locações que além do gasto exigia o empenho de ir até a locadora e procurá-lo nas prateleiras. Aliás, deveria haver uma pequena conspiração para que a cada mês ele mudasse de lugar. Mas ela sempre o encontrava, sem precisar perguntar aos funcionários. Talvez fosse um tipo de magnetismo, algo que a levava ao lugar exato, mesmo se vendasse os olhos.
Sim. Ela já se perguntou o porquê de alugar o mesmo filme tantas vezes ao ponto de encontrar furos, erros de continuidade e (quase) enjoar dos personagens. Mas tudo fazia mais sentindo enquanto cada incógnita aumentava. Algumas passagens eram tão simples que poderiam conter novas histórias dentro delas. Contradição demais pra filme de menos. Nem quatro horas de gravação resolveriam os problemas e clareariam as ideias.
Não era o melhor filme do mundo, o mais bem feito. Estava cheio de defeitos, e era um pouco fraco. Mas era o seu filme. Ela só precisava entender os diálogos, rever a fotografia, ouvir a trilha sonora, retroceder nos momentos decisivos, e escolher parar quando tivesse vontade. E fazer tudo novamente. Voltar ao mesmo lugar para devolvê-lo e retornar quando bem entendesse para começar de novo. E mais uma vez.
Tudo para acordar no dia seguinte sendo a mesma pessoa. E de novo, mais uma vez.

domingo, 22 de maio de 2011

Anti-herói


               Duas cicatrizes no queixo. Três pontos para uma brincadeira de cobra-cega quando criança, cinco pontos para uma queda de skate durante uma manobra, já adolescente. Marcas que não sem propósito costumam caracterizar quem não costuma ficar tempo demais no sofá. Na ausência de uma nova cicatriz, o zumbido doloroso da máquina de tatuar estava, naquele momento, registrando uma nova fase de vida. E não necessariamente como uma atitude desenfreada e instantânea como um corte que sangra, e sim como uma linha fina que também sangra, mas segundo por segundo registra na pele o que a vida se encarregou de fazer até aquele momento.
            Quem o ouve falar baixo e devagar mal imagina que a calma não impede que a personalidade forte transpareça. E paradoxalmente as pausas nas frases bem pensadas transmitem força. Sem parecer rude, apenas forte. E por ser forte é também verdadeiro. Não há equívoco ao achá-lo correto ou transgressor demais.
            Sem ser contraditório, Laercio aglutina a atitude de quem já subiu em janelas pra pichar muros, mas não por falta do que falar: exatamente por sobra do que dizer, como quem lê e tem uma resposta firme pra tudo. Certa vez pegou o último trem partindo de São Caetano, e com seus amigos e algumas latas de spray desceu em Mauá para deixar marcas urbanas nos muros da cidade, que nenhum deles conhecia muito bem. Enquanto ele e um amigo pichavam um prédio, outro ficou encarregado de observar a chegada de qualquer estranho a eles, e não deixou de cumprir a missão em avisar: a polícia veio e cada um deles correu para um lado. Mesmo sem as latas de tinta, as mãos ainda estavam sujas e não pôde fugir das viaturas que os perseguiam separadamente. Quando questionado sobre estar pichando, negou. Mas a criatividade foi falha ao justificar estar indo para casa, àquela altura da noite. Sem demora foi colocado dentro da viatura e foi de encontro a outro amigo que também havia sido pego.
            Em momento algum conversou com seu amigo, apenas o observou de longe enquanto os policiais riam e combinavam a regra do jogo: a cada vez que ele desse uma resposta negativa, seu amigo situado há alguns metros em outro muro sofreria consequências. Concordar com os questionamentos sobre estar sujando as paredes ou ter vontade de ir até a delegacia parecia incoerente. Mas ao mesmo tempo em que seu amigo recebia os murros sem poder ouvir as respostas, ele sabia que ao ver o amigo balançar a cabeça negativamente não ficaria barato para ele também. Passados dez minutos de tortura psicológica ambos foram liberados. Com vários hematomas, mas aparentemente não o suficiente para aprender a lição.
            Outra vez foi necessária, e nesta tapas ou arranhões não foram as medidas tomadas. Teve que cumprir trabalho voluntário na Escola de Ecologia, local em que teve gosto em ajudar. A pior parte era alimentar as cobras. E não só pela sensação de risco ao abrir o viveiro do animal, mas também pela necessidade de dar ratos vivos como refeições. Cobras, num ambiente de estudos e exposições, têm mais validade que um mero rato, não podendo correr o risco de que num momento de distração seja atacada. Como precaução, os ratos deveriam ser dados à cobra após um tratamento de choque: eram pegos pelo rabo e levemente batidos numa mesa. O suficiente para ficarem zonzos, sem que os ossos se quebrassem e tivessem que ser substituídos por outros ratos.
            Desde cedo lidou com a arte gráfica e seus primeiros trabalhos foram aos quinze anos, quando nem mesmo sabia qual quantia decente deveria ser cobrada. Dezoito meses de curso técnico em publicidade e propaganda abriram ainda mais seus olhos para perceber que a arte que fazia em muros, primeiro com grafites e depois com stickers poderia certamente ser feita pra vida inteira. Depois desse momento nunca mais teve dúvidas de que tinha uma relação vital com o design, sendo essa uma das poucas e mais reais verdades em sua vida.
            Cursou a faculdade de Design Gráfico custeado pelo ProUni sem que a dedicação viesse somente pela obrigação em tirar boas notas. Por um tempo utilizou um caderno feito com folhas escolhidas à dedo: tons de azul, algumas folhas pretas no fim e uma capa de papelão bege. Aproveitava cada pedaço das folhas para desenhar e fazer anotações na borda, com uma letra geométrica, expressiva e não menos artística. Sempre viu brilho nas aulas teóricas de História da Arte, que valoriza tanto quanto as práticas, pela necessidade de formação consciente. Por descuido e euforia de começo de semestre, faltou a algumas aulas de Antropologia e precisaria tirar mais pontos do que o previsto. Ao conversar com o professor, aceitou a proposta: se proporcionasse ao menos duas discussões verdadeiramente boas durante as aulas, seria aprovado. Passado o período o professor não pensou duas vezes, disse que cada comentário não proporcionou somente duas boas discussões como também o semestre mais acalorado e proveitoso da disciplina. Laercio fala, mas fala com propriedade.
            Muito do que sabe aprendeu com o pai, que quando jovem deixou de lado os estudos em Engenharia na Unicamp para lutar no movimento estudantil. Não é à toa que discute política com interesse e conhecimento de quem não lê jornal apenas os títulos nos portais da internet, e sim de quem cresceu pautado nesses temas. É na mesa do jantar que discute com o pai coruja, que o espera chegar em casa todos os dias, os assuntos que aconteceram ao longo do dia. Aposentado, seu pai faz questão de ir todos diariamente até a banca de jornal para comprar a Folha de São Paulo. Não quer saber de assinaturas mensais, receber o exemplar em casa acabaria com uma das atividades mais animadoras da manhã.
            É também nos jogos de futebol que acentua os laços familiares. São paulino desde pequeno, costuma ir assistir aos jogos com o pai sem que caia no clichê da relação pai e filho. Vê num pai uma figura de base, e só se interessa em ir às festas de família se o pai for, para que assim tenha com quem conversar. Chama a avó de abuela e diz que os palavrões nunca são medidos na hora das refeições. De origem espanhola, fala da cultura como quem conhece mais que a comida e dança típicas. Tem uma irmã mais velha de quem pouco fala, e um primo que considera muito. Demora para encontrá-lo, mas quando o vê, dá problema. Conta de viagens repentinas, pouco conscientes e com consequências econômicas a serem recuperadas por meses à frente. E ainda terá muito o que contar.
            Aliás, o próprio apelido, que por senso comum não costumam ter explicações, possui uma história. Hoje caracteriza o apelido como uma atitude meio prepotente, já que deu a si próprio. Com um nome que não possui sílabas sonoramente fáceis e práticas, adotou o termo monossilábico Lex. Precisava de algo curto e fácil que pudesse ser utilizado para assinar seus desenhos. Não encontrou saída melhor do que um apelido que faz alusão ao seu nome e ao mesmo tempo opõe-se ao Super Homem. De Lex Luthor a Lex Lopo, nasceu o anti-herói.
            Através do vidro que separa a sala de espera do estúdio do tatuador pude acompanhar a cara de dor para a agulha que cobria lentamente sua costela esquerda. O desenho foi escolhido para representar algo que considera transcendental: a mudança para uma fase madura, de certezas e perspectivas positivas. Um desenho forte, significativo e apesar ser uma caveira, é extremamente vivo. Uma escolha mais madura e pensada ao contrário da primeira tatuagem que carrega no braço esquerdo, da qual se arrepende, não gosta de mostrar e pretende encobrir. Fruto de quem aos catorze anos acha que tem todas as certezas do mundo. Mas não exatamente precipitado.
            Laercio Lopo Juarez hoje trabalha na agência de publicidade Mccann, onde apesar do ambiente descontraído não possui responsabilidades menores. Entra para trabalhar no meio da manhã sem saber a que horas será possível voltar para casa. Já chegou a passar dias inteiros trabalhando, com colegas de trabalhos tão expressivos quanto ele próprio. De tão aberto, o ambiente de trabalho chega a tornar-se cruelmente sincero quando os colegas já não censuram respostas grossas ou piadinhas para ele, que sempre chega depois das nove. Uma resposta áspera bastou para que não fizessem mais comentário algum, sem crises, sem brigas.
            Sempre gostou mais das pessoas introspectivas e aproximou-se de quem seria normalmente considerado estranho. Foge de tudo o que é superficial, sem se limitar a encontrar sentido em tudo o que faz. Odeia quem anda de patins e se irrita fácil com gente ignorante. É eterno adepto do papel e caneta, e acha que nada substitui o cheiro de livro novo entre os vários que ocupam suas prateleiras – já sofrendo com a falta de espaço para novos exemplares.
            Quatro horas depois, Lex saiu do estúdio com a tatuagem contornada, ainda como um esboço do que completará o ritual de passagem. Antes seu armário de roupas era composto por camisetas brancas, pretas e cinzas; hoje possui inúmeras camisas xadrez. Muda de fase com um passo firme ou em uma acentuada manobra de skate. Acentuada e mutável. Assim como o paradoxo de ter ao mesmo tempo uma aura que transmite paz, mas que não deixa de queimar por dentro.
            Seus vinte e poucos anos parecem já ter delimitado sua personalidade. Mas assim como é impossível criar uma arte sem ao mesmo tempo destruir outra, o seu desenho nunca estará pronto. Como numa tatuagem sem fim, que enquanto a figura ganha mais adornos e parece cada vez mais bonita aos olhos, ela não deixa de sangrar. E ser viva.

Site com portfólio e trabalhos de Laercio Lopo Juarez: http://www.laerciolopo.com

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Anos-agora

De quatro a sete mesas enfileiradas frente, ou lado, às janelas. Poucas vazias, outras fora da minha visão periférica - logo as que me fogem da contagem precisa. Por serem de quatro lugares - e pequenas, em comparação com as mesas redondas ou as que mais parecem de reunião -, são comumente ocupadas por pessoas isoladas, e não necessariamente sozinhas.
Tomada pela culpa de ocupar um espaço maior do que preciso, dividi a mesa com uma moça, que provavelmente me xingou por pensamentos, pensando porque raios eu decidi sentar-me com ela, quando poderia ocupar qualquer outra mesa vazia.
Sentei, e não tardou para que ela se levantasse. Exitei mudar de lugar e ocupar a posição em que ela estava: de frente para quem também dividia o mesmo ambiente. Permaneci de costas, não pela opção de me virar contra as pessoas, e sim atraída pela perspectiva de observar ainda mais as pessoas. 
Por trás das janelas fumê, o sol tímido de começo de outono coloriu a imagem como uma fotografia retrô. Mas as roupas e a dinâmica das ruas não possibilitavam que se imaginasse estar nos anos 50. Era uma típica imagem dos anos-agora, só que com um tom amarelado, talvez de quem usa óculos de sol e não consegue saber exatamente quais são as cores dos objetos.
I'll make you mixtape that's a blueprint of my soul.
A faixa de pedestres e cada uma das pernas compassadas. Sem saber, compõem uma sincronia angular, frenética e constante. De tempos em tempos. Esperar e andar, esperar e andar. Como uma ordem pré-estabelecida, como um grupo que segue para um único destino.
It may sound grand but babe it's all you need to know.
As cores pouco diferem do cinza-asfalto-calçada-parede. A palheta de cores, fixada na escala de tons-escritório coincide com a correria, com as pernas compassadas, constantes.
I'll make you mixtape that will charm you into bed.
Tudo o que passa correndo também se demora amargamente. E não precisa ir rápido. Pelo menos não como as pernas compassadas, constantes. Correndo, aqui, só os pensamentos.
It details everything that's running round my head.




(Mixtape - Jamie Cullum)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Você tem meia hora

Logo a janela que eu queria aberta é a única que permanece fechada. Todo sol que penetra pelas outras quatro não fortalece meus ossos e não ilumina o quarto, que além das venezianas parece haver uma cortina bem escura e grossa. Não é questão de tempo. Esperar os dias correrem soa como uma doce melodia, que embala os passos logo cedo na grande avenida. O coração palpitante mal pode segurar o sorriso querendo abrir. Esperar é pouco. Eu poderia ser ainda mais após a força de uma palavra, eu poderia oferecer muito mais após a certeza de duas palavras. O orgulho de quem caminha de cabeça erguida frente ao leque de possibilidades, de pratos postos na mesa e convites solenes. Enquanto todo o resto simplório não se torna menos. Uma vida inteira bem servida pela frente.
Mas os dedos estão congelando ao tocar a geada cobrindo as folhas do jardim. E não vai mudar. A única janela que eu queria aberta é a única emperrada e impossível de abrir.

terça-feira, 1 de março de 2011

Littera

Toda decisão relevante envolve sofrimento. Porém, acima disso está o benefício da escolha, ao invés de ser escolhida. Prefiro assim: um passo de cada vez, mas um passo bem dado, bem pensado e bem vivido. Nada supera o viver saudável, um sono tranquilo e um fim de semana de diversão - pois também há muita vida lá fora.
Não pretendo parar tão cedo, mesmo. E quando se tem um sonho, e muita vontade de alcançá-lo não existe tempo certo ou errado, cedo ou tarde. Estou certa, mas ainda não estou exatamente segura. Na verdade, nunca estarei. E esse constante sentimento é o que me faz querer ir até o último andar.
Enfim troco letras pelo conjunto delas. E que venham frases construídas, parágrafos completos e muitos outros textos inteiros.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

De frente ao mar

Fiquei doente. Aquele peso esmagador, que não se decidia qual parte do metabolismo atacava, resolveu não decidir. E de repente, fiquei doente, de toda e qualquer maneira. Mas foi logo nesse ato de constatação que eu lembrei que não havia solução: antibiótico não cura doença de amor.


Abrir mão, enquanto ainda se pode ter nas mãos parece algo pouco inteligente. E meu ego me reprovou em cada atitude que agora tirou da reta as flores na porta de casa. Mas eu sou piegas.
Quebrei o que poderia facilmente ter quebrado, e agora ultrapassei o inesperado. Não encontrei mais nenhuma regra a ser seguida, além daquela voz que pertinentemente gritou para que eu desse um passo de cada vez e vivesse uma história por vez. E errasse por me ser, para no fim, me acertar.
Terminar uma coisa que não começou soa como algo muito calculista (algo muito vindo de mim), e eu nunca tentei tanto e nunca quis tanto que a situação fosse tomada por causas naturais. Mas não foi. Não penso em me desculpar e não sobra qualquer espaço em mim para que eu sinta culpa. Eu só fico com saudade do que acabei de impedir que aconteça, do que eu senti e poderia sentir.
Contudo, eu já me sinto forte. Exagero nas palavras, e essa atitude inédita de tomar as rédeas parece muito mais de carne e osso do que sentar e esperar, ou do que manter perto o que me faz bem pra quando quiser o bem - só para quando eu quiser. Não estou esperando ser canonizada por atitudes altruístas. Inclusive, vejo mais egoísmo que altruísmo em meus atos.
Qualquer calafrio ou bem estar não me impediram de ver de maneira clara, foi a única vez em que tentei ser inconsequente e viver aos tropeços, desde que me fizessem bem. Porém, o impossível é me enganar por muito tempo: a ideia é muito boa, mesmo, mas não poderia funcionar na prática, simplesmente porque fora do papel, o papel jamais seria cumprido como se deve. Posso me arrepender, posso e possivelmente fraquejarei, mas nada paga a minha cabeça deitando leve no travesseiro para dormir.
Sinto alívio, mas pouco conforto. Não troquei instabilidade por certezas absolutas. Estou na corda bamba de quem pode estar tentando ser justa, e por fim (e não pela primeira vez) perder tudo. Se é que alguém perde o que não tem.
Estou pouco preparada pra lidar com caixas vazias, páginas mal respondidas e comportamento virado do avesso. Mal sei o que fazer com essas paredes, que não possuem ouvidos mas são tão sensíveis que absorveram cada lembrança sua. E, agora, elas lembram de você antes que eu cogite pensar nisso.


A história não acaba aqui. As ondas nunca vão parar de avançar na areia. Pelo contrário: por mais forte que voltem ao mar e quebrem nas pedras, a calmaria retorna aos pés na beira da areia molhada.
Ainda transtornada deixei que as febres aflorassem, que todas as dores pulsassem. Inutilmente tomei cada uma das pílulas, não queria dizer adeus. E foi quando adormeci, leve.