Duas cicatrizes no queixo. Três pontos para
uma brincadeira de cobra-cega quando criança, cinco pontos para uma queda de skate
durante uma manobra, já adolescente. Marcas que não sem propósito costumam
caracterizar quem não costuma ficar tempo demais no sofá. Na ausência de uma
nova cicatriz, o zumbido doloroso da máquina de tatuar estava, naquele momento,
registrando uma nova fase de vida. E não necessariamente como uma atitude
desenfreada e instantânea como um corte que sangra, e sim como uma linha fina
que também sangra, mas segundo por segundo registra na pele o que a vida se
encarregou de fazer até aquele momento.
Quem
o ouve falar baixo e devagar mal imagina que a calma não impede que a
personalidade forte transpareça. E paradoxalmente as pausas nas frases bem
pensadas transmitem força. Sem parecer rude, apenas forte. E por ser forte é
também verdadeiro. Não há equívoco ao achá-lo correto ou transgressor demais.
Sem
ser contraditório, Laercio aglutina a atitude de quem já subiu em janelas pra
pichar muros, mas não por falta do que falar: exatamente por sobra do que
dizer, como quem lê e tem uma resposta firme pra tudo. Certa vez pegou o último
trem partindo de São Caetano, e com seus amigos e algumas latas de spray desceu
em Mauá para deixar marcas urbanas nos muros da cidade, que nenhum deles
conhecia muito bem. Enquanto ele e um amigo pichavam um prédio, outro ficou encarregado
de observar a chegada de qualquer estranho a eles, e não deixou de cumprir a
missão em avisar: a polícia veio e cada um deles correu para um lado. Mesmo sem
as latas de tinta, as mãos ainda estavam sujas e não pôde fugir das viaturas
que os perseguiam separadamente. Quando questionado sobre estar pichando,
negou. Mas a criatividade foi falha ao justificar estar indo para casa, àquela
altura da noite. Sem demora foi colocado dentro da viatura e foi de encontro a
outro amigo que também havia sido pego.
Em
momento algum conversou com seu amigo, apenas o observou de longe enquanto os
policiais riam e combinavam a regra do jogo: a cada vez que ele desse uma
resposta negativa, seu amigo situado há alguns metros em outro muro sofreria
consequências. Concordar com os questionamentos sobre estar sujando as paredes
ou ter vontade de ir até a delegacia parecia incoerente. Mas ao mesmo tempo em
que seu amigo recebia os murros sem poder ouvir as respostas, ele sabia que ao
ver o amigo balançar a cabeça negativamente não ficaria barato para ele também.
Passados dez minutos de tortura psicológica ambos foram liberados. Com vários
hematomas, mas aparentemente não o suficiente para aprender a lição.
Outra
vez foi necessária, e nesta tapas ou arranhões não foram as medidas tomadas.
Teve que cumprir trabalho voluntário na Escola de Ecologia, local em que teve
gosto em ajudar. A pior parte era alimentar as cobras. E não só pela sensação
de risco ao abrir o viveiro do animal, mas também pela necessidade de dar ratos
vivos como refeições. Cobras, num ambiente de estudos e exposições, têm mais
validade que um mero rato, não podendo correr o risco de que num momento de
distração seja atacada. Como precaução, os ratos deveriam ser dados à cobra
após um tratamento de choque: eram pegos pelo rabo e levemente batidos numa
mesa. O suficiente para ficarem zonzos, sem que os ossos se quebrassem e
tivessem que ser substituídos por outros ratos.
Desde
cedo lidou com a arte gráfica e seus primeiros trabalhos foram aos quinze anos,
quando nem mesmo sabia qual quantia decente deveria ser cobrada. Dezoito meses
de curso técnico em publicidade e propaganda abriram ainda mais seus olhos para
perceber que a arte que fazia em muros, primeiro com grafites e depois com stickers poderia certamente ser feita
pra vida inteira. Depois desse momento nunca mais teve dúvidas de que tinha uma
relação vital com o design, sendo essa uma das poucas e mais reais verdades em
sua vida.
Cursou
a faculdade de Design Gráfico custeado pelo ProUni sem que a dedicação viesse
somente pela obrigação em tirar boas notas. Por um tempo utilizou um caderno
feito com folhas escolhidas à dedo: tons de azul, algumas folhas pretas no fim
e uma capa de papelão bege. Aproveitava cada pedaço das folhas para desenhar e
fazer anotações na borda, com uma letra geométrica, expressiva e não menos
artística. Sempre viu brilho nas aulas teóricas de História da Arte, que
valoriza tanto quanto as práticas, pela necessidade de formação consciente. Por
descuido e euforia de começo de semestre, faltou a algumas aulas de
Antropologia e precisaria tirar mais pontos do que o previsto. Ao conversar com
o professor, aceitou a proposta: se proporcionasse ao menos duas discussões
verdadeiramente boas durante as aulas, seria aprovado. Passado o período o
professor não pensou duas vezes, disse que cada comentário não proporcionou
somente duas boas discussões como também o semestre mais acalorado e proveitoso
da disciplina. Laercio fala, mas fala com propriedade.
Muito
do que sabe aprendeu com o pai, que quando jovem deixou de lado os estudos em
Engenharia na Unicamp para lutar no movimento estudantil. Não é à toa que
discute política com interesse e conhecimento de quem não lê jornal apenas os
títulos nos portais da internet, e sim de quem cresceu pautado nesses temas. É
na mesa do jantar que discute com o pai coruja, que o espera chegar em casa
todos os dias, os assuntos que aconteceram ao longo do dia. Aposentado, seu pai
faz questão de ir todos diariamente até a banca de jornal para comprar a Folha
de São Paulo. Não quer saber de assinaturas mensais, receber o exemplar em casa
acabaria com uma das atividades mais animadoras da manhã.
É
também nos jogos de futebol que acentua os laços familiares. São paulino desde
pequeno, costuma ir assistir aos jogos com o pai sem que caia no clichê da
relação pai e filho. Vê num pai uma figura de base, e só se interessa em ir às
festas de família se o pai for, para que assim tenha com quem conversar. Chama
a avó de abuela e diz que os
palavrões nunca são medidos na hora das refeições. De origem espanhola, fala da
cultura como quem conhece mais que a comida e dança típicas. Tem uma irmã mais
velha de quem pouco fala, e um primo que considera muito. Demora para
encontrá-lo, mas quando o vê, dá problema. Conta de viagens repentinas, pouco
conscientes e com consequências econômicas a serem recuperadas por meses à
frente. E ainda terá muito o que contar.
Aliás,
o próprio apelido, que por senso comum não costumam ter explicações, possui uma
história. Hoje caracteriza o apelido como uma atitude meio prepotente, já que
deu a si próprio. Com um nome que não possui sílabas sonoramente fáceis e
práticas, adotou o termo monossilábico Lex. Precisava de algo curto e fácil que
pudesse ser utilizado para assinar seus desenhos. Não encontrou saída melhor do
que um apelido que faz alusão ao seu nome e ao mesmo tempo opõe-se ao Super
Homem. De Lex Luthor a Lex Lopo, nasceu o anti-herói.
Através
do vidro que separa a sala de espera do estúdio do tatuador pude acompanhar a
cara de dor para a agulha que cobria lentamente sua costela esquerda. O desenho
foi escolhido para representar algo que considera transcendental: a mudança
para uma fase madura, de certezas e perspectivas positivas. Um desenho forte,
significativo e apesar ser uma caveira, é extremamente vivo. Uma escolha mais
madura e pensada ao contrário da primeira tatuagem que carrega no braço
esquerdo, da qual se arrepende, não gosta de mostrar e pretende encobrir. Fruto
de quem aos catorze anos acha que tem todas as certezas do mundo. Mas não
exatamente precipitado.
Laercio
Lopo Juarez hoje trabalha na agência de publicidade Mccann, onde apesar do ambiente descontraído não possui
responsabilidades menores. Entra para trabalhar no meio da manhã sem saber a
que horas será possível voltar para casa. Já chegou a passar dias inteiros
trabalhando, com colegas de trabalhos tão expressivos quanto ele próprio. De
tão aberto, o ambiente de trabalho chega a tornar-se cruelmente sincero quando
os colegas já não censuram respostas grossas ou piadinhas para ele, que sempre
chega depois das nove. Uma resposta áspera bastou para que não fizessem mais
comentário algum, sem crises, sem brigas.
Sempre
gostou mais das pessoas introspectivas e aproximou-se de quem seria normalmente
considerado estranho. Foge de tudo o que é superficial, sem se limitar a
encontrar sentido em tudo o que faz. Odeia quem anda de patins e se irrita
fácil com gente ignorante. É eterno adepto do papel e caneta, e acha que nada
substitui o cheiro de livro novo entre os vários que ocupam suas prateleiras –
já sofrendo com a falta de espaço para novos exemplares.
Quatro
horas depois, Lex saiu do estúdio com a tatuagem contornada, ainda como um
esboço do que completará o ritual de passagem. Antes seu armário de roupas era
composto por camisetas brancas, pretas e cinzas; hoje possui inúmeras camisas
xadrez. Muda de fase com um passo firme ou em uma acentuada manobra de skate.
Acentuada e mutável. Assim como o paradoxo de ter ao mesmo tempo uma aura que
transmite paz, mas que não deixa de queimar por dentro.
Seus
vinte e poucos anos parecem já ter delimitado sua personalidade. Mas assim como
é impossível criar uma arte sem ao mesmo tempo destruir outra, o seu desenho
nunca estará pronto. Como numa tatuagem sem fim, que enquanto a figura ganha
mais adornos e parece cada vez mais bonita aos olhos, ela não deixa de sangrar.
E ser viva.
domingo, 22 de maio de 2011
Anti-herói
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