quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Coisas do Mundo

Eu me agarrei à minha bolsa, que não guardava nada valioso além de filmes e memórias, numa escrita insegura. Dentro do ônibus eu me sentia errada, quase com má vontade. Porém, naquele momento, eu já assumia pra mim mesma que esse era um dos meus melhores disfarces, só pra negar toda a ansiedade e desespero em cada passo que eu dava. Quando me dei conta, estava quase falando sozinha e todos ao meu redor perceberam quando eu voltei na realidade. Era hora de descer.
Em pleno verão o mundo resolveu fazer inverno. Os céus sabiam que não era dia de festa: aquele era o último momento em que eu me sentiria enorme, mesmo com 1,67 de altura. Era a última chance de ser feliz.

A última coisa que eu poderia demonstrar era fraqueza, logo eu que fugi de cada agrado, elogio ou promessa. Incrível como sem nem mesmo pensar pra isso eu já agia normalmente, falando mais que fazendo e esperando cada afeto por sua vez. Mesmo que no fundo eu quisesse fazer o mundo todo parar e me deixar ser feliz pra sempre.

Ao contrário do que dizem, o tempo não passou rápido demais. Foi devagar, e cada vez mais difícil e silencioso. Por mais que eu não tivesse coragem de carregar minhas palavras com tudo o que eu sentia, meus olhos deveriam entregar a verdade: eu já sofria. Sofria mas ficava o tempo todo em dúvida se o sentimento era merecido ou mais um dos milhares disperdiçados. O meu subconsciente me prega peças e eu quase dei razão pra cada bronca que levei.
Mas foi aí que eu lembrei que era tarde demais pra ser especial, não havia mais tempo de fazer mais parte de algo que não sei se pertenço, ou pentencia. Fiz o meu melhor, em algum lugar deve ter ficado um pedaço de mim. Numa mordida de maçã, numa música velha ou em um coração.
Apesar do sono absurdo, culpa de todo o cuidado e dedicação em escolher cada palavra que fizesse sentido (sentir), eu não dormia pensando se uma folha de papel me faria ser menos ou mais. Menos significante, menos comum, mais babaca ou mais importante.
Entreguei. Destrui todo o momento especial com palavras grossas e uma risada desesperada. Mas assim eu não iria conviver com a dúvida e a falta de certeza de que agora sim, eu fiz tudo o que eu pude.
Respirei fundo em cada contato, em cada olhar fundo. Prestei atenção na mesa posta, nos documentos, nas roupas nos cabides e em cada música no violão. Guardei como eu pude cada carinho e esforcei pra que esse subconsciente retardado guardasse a ordem cronológica detalhadamente.

Sempre chego à conclusão de que fui menos. E sou pega no arrependimento de não saber escolher as palavras e atitudes certas. Mas talvez eu deva parar de tentar mudar meu jeito de resolver as coisas. Eu sou assim. E jamais demonstraria que daquele dia em diante seria difícil. E será.

Quando entrei no elevador a pressão do mundo já parecia outra. Eu me sentia muito mais leve, muito. Mas isso é completamente distinto da sensação de alívio. Não me livrei de um problema nem de um mártir. Eu apenas já me sentia vazia.

Quebrei as regras das regras que eu já havia quebrado. Mas desde o começo, lá no fundo, eu já sabia que a cada vez que eu dizia ter certeza do que estava fazendo eu me perdia mais.
E assim fiquei. Eu nem sabia por onde começar. Passei a conferir insanamente alertas no celular e foi aí que eu toquei: acabou. Meus dias não serão mais cheios de atenção e de planos antecipados pro fim de semana. Nas sextas a noite meu rumo não será definido com duas ligações ansiosas. Eu poderia até mesmo agradecer por não ficar mais em cima do muro com cada oscilação frequente de afeto. Mas até disso eu vou sentir falta.

Estou sendo dramática de um jeito que disse não ser necessário, mas é quase engraçado de tão injusto que o destino me parece. Não pedi mais além do que eu pude dar, e mesmo assim recebi o suficiente pra completar os meus dias.
Não é à toa que eu seja forçada a me livrar de algo que me faz bem, e mesmo que eu já havia sido avisada que isso seria necessário, só me resta esperar que eu tenha sido algo também. Não sou de forçar situações e sei que jamais ocuparia o lugar de alguém mais presente e mais importante. Não há como comparar ou eliminar anos de afeto em detrimento de dois meses. Nunca tive essa ilusão.
Mas só espero que de alguma maneira sobre algo a ser lembrado, algo bem guardado. Assim como há em mim. Não consigo saber ainda o que eu farei com os meus dias e com essa minha cabeça teimosa, que insiste em pensar em você. Não me sobrou nenhum plano de ação além do de tentar ser feliz, mais uma vez.
Agora eu sei, que despedida é uma das piores coisas do mundo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Não apenas uma, mas aquela de amor.

Na penúltima linha, quando houve o prenúncio do clímax absoluto da linha de pensamento, meu primeiro, e mais natural impulso, foi tacar a folha pra longe de mim, no outro canto da cama. Levei a mão à boca e fiquei a imaginar se aquele turbilhão era felicidade, surpresa ou apenas mais um loop inesperado.
Não sei por que as pessoas enfrentam filas num parque de diversões para quando sentar no carrinho da montanha-russa fechar os olhos e só abrir quando os freios são acionados. Você espera por algo, pensa em desistir, teme, precisa de incentivos e depois, simplesmente, fecha os olhos esperando que tudo acabe logo. Mas então porque decidiu andar na montanha-russa?

Talvez pela primeira vez eu não esteja com o dicionário em mãos, buscando sinônimos, ouvindo músicas atrás de inspirações. Tudo para mascarar, ou melhor, conseguir me permitir dizer o que precisava dizer. Estou sendo claramente sincera como poucas vezes. E quem sabe pela última: eu sei bem quem presta atenção no que eu digo, ou escrevo. Ao menos conheço quem frequentemente brinca nas interpretações dos meus erros, dos meus sentimentos mais errados e absurdos. E eu sei que a pessoa dona dessas palavras ainda irá lê-las. E espero que as entenda também.

Os dois parágrafos acima me parecem pobres, fracos e mais descarados do que o meu bom senso poderia permitir. Nunca escrevi pra isso, nunca imaginei que alguém além de mim pudesse ler e encontrar sentido, semelhança. Mas hoje eu faço uso do pombo correio.
Eu queria chegar em casa e salvar o mundo, ou tentar consertar um coração partido. Mas quando finalmente respirei fundo, cantei um refrão da música que estava ouvindo, e terminei de ler a carta eu simplesmente segui meu instinto quase animal: desabar em letras tudo o que isso significa pra mim.

Pode parecer que não, mas a cada momento, a cada pedaço de vida compartilhado, eu me vejo pensando em como não machucar quem eu quero bem. E até mesmo pensando se eu ainda sou culpada, se antes plantei sementes que hoje não condizem com o meu terreno. Ou, se num momento de baixa racionalidade, brinquei com o que não posso cumprir. Nunca agi além do que pensei ser capaz, nunca pronunciei palavras que não me fossem verdadeiras. O rumo simplesmente acabou sendo outro.
Não acho que assim seja ruim, injusto ou diferente do que eu imaginava. A família que construímos, hoje, é como um castelo feudal. Protegido por enormes muralhas, soldados eficientes e servos obedientes. E eu sou cada servo que cumpre suas funções, cada soldado que age instantaneamente quando algo parece ser perigoso. E justamente por isso, ainda carrego o peso de fazer tudo errado, mais uma vez.

Eu não tenho capacidade de prever, e muito menos noção de palpite para tentar adivinhar cada curva que essa história ainda irá percorrer, cada linha em branco que será verdadeiramente preenchida. Hoje, eu só consigo ter certeza de até onde eu consigo ir. E eu temo por ser pouco.
Poucas pessoas no mundo merecem confiança prévia, respeito absoluto e carinho eterno. Mas, parece que você, desde o primeiro suspiro de vida, já tinha, na minha vida (que ainda não era fisicamente real), esse posto intocável e insubstituível. Só consigo concluir que não mereço o cuidado, a letra desastrosa, a seleção musical e o amor. É tudo tão absolutamente sincero que não posso retribuir, pelo menos como talvez você espere que eu retribua.

Não pensei que, tão cedo, fosse ter que lidar diretamente com essa situação. Ou talvez eu até imaginasse, mas fingi não ver só para não cair na certeza de que iria decepcionar quem menos merece.
Assim, você me deu as palavras. Eu as captei, juntei com os sorrisos e tomei pra mim de forma natural, que condiz com o que eu sinto e com o que faz sentido nesse momento.

Não há nada errado, fora de hora, exagerado ou não correspondido. Apenas pode ser que, lá no fundo, os princípios sejam outros, e as raízes sejam feitas de compostos vegetais diferentes. Contudo, elas convivem num mesmo gramado, vaso, jardim ou floresta. Onde quer que esteja, seja, faça, diga, a verdade não muda: em mim também cabem sorrisos e amor, que crescem conforme os ciclos de claro e escuro intercalam-se.

O pior é saber que ainda cometerei erros enormes. Decepcionar e chatear você são erros dos piores: sei que cometerei, sei que terei a culpa, e ainda assim não posso detê-los. Minha vida ainda tem rumos a seguir, histórias para construir, frustrações e outros amores. Acredite. Eu me sinto incapaz, impotente e imbecil de não poder poupar que você presencie algumas coisas que talvez não te façam bem. Mas, eu preciso viver a minha vida. Preciso escrever minhas linhas tortas e respirar cada sopro de vida.

Soa clichê, mas eu também não posso fugir da palavra mais simples e significativa que consigo encontrar agora: desculpe. Por não ser quem você espera que eu seja, por não corresponder ao que você deseja e por ser tão burra, inquieta, e ainda assim consciente, de preferir viver pelo erro.




segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Castelo de areia

Condições adversas. Eu estava onde não queria estar, cercada por pessoas as quais eu não gostaria de compartilhar do meu tempo. Mas eu estava adorando aquilo.
É exatamente o momento em que não há condições de se passarem muitas coisas pela cabeça além do fazer ou não fazer. E tudo se resume na enorme besteira de guiar os seus atos já pensando no que os outros irão pensar. Começar a dizer que não me importo é a maior afirmação de que exito por me importar.
Às vezes uma linha muito fina e frágil separa dois rumos distintos. Eu entendi onde estava e cada uma das não-regras embutidas nisso, mesmo que os coadjuvantes fossem fora da minha realidade, e talvez parte de onde eu queria estar e tinha certeza que nunca estaria. Mesmo que agora já estivesse.

Isso me remete à longa e dura transição do ser ou não ser, obrigatoriamente embutida na vida de quem se aventura a viver. Pode até ser que haja vida, e boa vida, além disso. Mas, a minha ganhou cores a partir do momento em que as duas caixas derramaram seus conteúdos no chão. E não houve mais distância, diferença e empecilho entre os de lá e os de cá.
Foi assim que me lembrei de que não há segredo. Que o justo fato de não ser naquela época está me fazendo ser agora. Ser alguém pra que se saiba que existe, sem as manchas de quem já existia.

Não houve mais limite, e eu não pude me desprender do peso de quem, mil quilômetros depois, vai me julgar pelas minhas escolhas. Faço bom uso do álibi. Terra sem lei, atitudes sem lei.

As linhas em branco receberam tudo aquilo que elas não estavam prontas pra receber. Mas ainda assim, tudo o que faltava pra completar o capítulo. Muito teria sido diferente, para menos, sem os detalhes de afeto e desafeto. As histórias contadas seriam outras. Se é que haveria alguém para ouvi-las.
Todo álibi depois, não existe isso de pregarem com pregos de aço as histórias, cada uma aonde aconteceram. Elas voltam, dentro do maleiro do avião. E aqui reaparecem, consequência por consequência. Julgamento por julgamento. 

O castelo foi construído. E apesar da fraca fundação, das rachaduras, e das frequentes e insistentes ameassas de tempestade. Mas eu quero que ele continue de pé, pelo menos até a data do fim.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Since

E quando foi que nós nos perdemos? Não vejo um divisor de águas, um copo a mais ou uma tragada a menos que tenha mudado nossas verdades. Então o que é a verdade? Algo que muda ao longo dos dias não pode ser exato, racional e iniludível. A constante permutação de tudo aquilo que abraçamos e defendemos com unhas e dentes exclui o conceito de veracidade nos primeiros pré-requisitos. Então, diga-me, o que é a verdade?

Foi no momento em que eu abri uma janela que você fechou outras duas? Ou foi quando eu tapei o sol com a cortina que você se protegeu com óculos de sol?
Quando tudo que fez parte parte do meu passado caiu em ruínas, que mal servem como boas lembranças, acreditei na ilusão de que você permaneceria aqui. E de repente eu ouço você me pedir "por favor", como se sete anos se reduzissem a nada.
Vejo um muro divisor. Grande em todos os sentidos (assumo todo o rancor comparativo), mas ainda assim pequeno. Pequeno de positividade, pequeno de atitudes e situações concretas. Transbordando de sonhos utópicos, alegóricos. Sonhar tem sido pouco.

Ainda que eu me veja coberta pelo sagrado manto da razão, não esqueço o outro lado da moeda. A coroa me incentiva enquanto a cara me mantém com os pés no chão. Basta virar a moeda para que eu seja exibicionista, vulnerável, e mais uma. Enquanto você é quem tem o real valor, quem a mãe passa a mão na cabeça enquanto consola, que o mundo é sim ruim, mas quem é realmente bom tem seu lugar guardado. Você tem todo o talento do mundo, cabeça forte, personalidade e apoio familiar. A idiota aqui, sou eu. Eu quem faço tudo errado.

Dia-a-dia me consumo em favores da qual nunca fui obrigada ou recompensada. Fico articulando palavras e tentando me colocar numa gaveta que não caibo mais. Até uma criança já teria resolvido seu problema dividindo suas canetas coloridas novas pra cativar amizades. E eu continuo a passar, dia após dia, pensando quando é que isso vai acabar.
Mais quatro, cinco, seis anos é mais do minha capacidade apaziguadora pode suportar. Até lá, tudo o que permaneceu entalado, como biscoito água e sal, terá me transformado no que eu sei que não sou, e que não preciso ser relembrada.

Que assim seja. Assumo a imbestilidade ou qualquer desgraça que me for classificada, com um dedo indicador que só desqualifica. Por alguém que separa por defeitos, e que o melhor é menos pior.
Acima de qualquer discurso furado de quem acha que venceu mais uma batalha: cada passo que me afastou de você, e que aproximou a muralha das lamentações, me fez bem e satisfeita. Não me arrependo de cada passo novo, e de cada pedaço que me coloca onde eu quis. História de vida.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Adrenalina

(Da série que não deveria ter data)
Logo eu, que por tanto tempo evitei as filas de quatro horas por alegar queda de pressão, fui designada aos trilhos de madeira. Que por si só, sacolejam como batedeiras de bolo. Ainda sem um cinto de segurança que prende pelo peito, apenas uma barra fina na cintura. E de costas, pressionando o pescoço contra a gravidade, sempre de costas. Mas nunca para trás.
Logo eu, que sempre achei essa comparação muito fraca e previsível, percebi que nada tem sido diferente dos pontos médios que desenham o polígono de frequência. Com frequência pouco frequente: altíssimos ou baixíssimos pontos máximos e mínimos, repectivamente ou não. Verde e preto. Como um eletrocardiograma oscilante, agudo, preciso, pulsando e vivo.

Vivendo. Foi assim que já nem me lembro de como eu era há cinco minutos, apenas recordo de que estou onde eu, um dia, quis estar. E como já não é novidade: não era exatamente assim que eu imaginava.
Tudo tem acontecido, tudo tem mudado. Mas nada está acontecendo, e nada está mudando. É a luta dos extremos, ter tudo e nada ao mesmo tempo. Ter logo dois pássaros nas mãos, e ainda ver outros dois voando.

Não quero descer. Não sou bem aquela que grita pra acelerarem o controle, mas não pensei em ir para o carrossel. Tenho raras lembranças dos cavalos dourados, que se restringem a fundos de fotos. Sem lembranças do que ficou, ou do que me contaram. Lembro das curvas, do dragão vermelho na frente do primeiro lugar e da cauda espetada logo ao fim. 


Sou viciada em adrenalina, o tremer ansioso de uma perna sob a mesa é a espera pela próxima curva. E justamente ao contrário do que parece, não é um lugar na carruagem espelhada a resposta das perguntas. A calmaria e a música melancólica vão contra ao que corre nas minhas veias. O preenchimento das lacunas é o traçado de uma ferradura: dois extremos, ligados por um caminho curvado.


E logo eu, que pensei não  precisar de mais nada, nunca precisei tanto. Nunca achei que poderia ser tão necessário me livrar das lembranças dominicais. Nunca pensei que fosse assumir ser de pele e ossos e muito mortal, ao ponto de ser mal completada.

Mas eu não vou descer. Vou ficar bem aqui, à espera do looping que fará o mundo virar de ponta cabeça. Para que mesmo que eu veja o céu azul com nuvens brancas, eu retorne rapidamente ao eixo, e volte a ver o chão, mesmo que com a maior brutalidade possível. Já que dizem que o certo é o lado direito e ainda assim tudo continua virado, só me resta virar do avesso pra ver se assim alguma coisa passa a fazer sentido por aqui.


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ligação

Quando digo que a Gramática é meticulosamente programada iniciam as discussões de que é desnecessariamente complicada, cheia de regras desfeitas sem piedade nos acordos ortográficos, os verbos possuem inúmeras conjugações e poucas pessoas sabem, realmente, falar Português como se deveria.
E eu não consigo parar de ver metáforas, afinal foi tudo realmente programado. Os verbos que, gramaticalmente, não representam nem efetuam ações são exatamente aqueles que tem feito tudo parecer virado ao contrário. E só por isso já utilizei inúmeros transitores de estados. As dúvidas ultrapassam o uso de acentos em ditongos abertos, e nem mesmo o dicionário consegue achar significados coerentes para cada raio de luz de nome desconhecido. As análises sintáticas não encontram o complemento nominal e eu nem insisto que o sujeito seja, por enquanto, oculto. Nada impede de ser inexistente ou simples. Simples.
Quando eu imagino que os domingos chegaram ao fim, vejo que os feriados prolongados são ilusórios e a voz reflexiva insiste em ecoar que eu pratiquei e recebi, sozinha, a ação de enganar-me. Ou mesmo quando eu penso ter encontrado um sentido pelo qual quero e preciso seguir, encontro a bifurcação da sinonímia: duas coisas podem ter o mesmo, ou aproximado, significado.
Depois que o eufemismo chega ao fim, eu percebo os erros e os fracassos. Entendo que até o que antes foi neologismo, hoje pode fazer parte da classe de palavras. Mas pior ainda é aceitar aquilo que cai em desuso. Vossa mercê ficaria melhor ainda se tivesse um grupo gue gui pra acrescentar trema.

Não discordo de quem prefere a frieza e praticidade da Língua Inglesa a esse idoma articulado, gesticulado e pouco levado a sério. A Gramática não é a única desnecessariamente complicada, cheia de regras desfeitas sem piedade nos acordos ortográficos, verbos com inúmeras conjugações e poucas pessoas falantes, realmente, do Português como se deve.
Desde os verbos de ação, até aqueles de predicados nominais: nenhum até hoje me pareceu simples e com manual de instruções. Não há figura de linguagem capaz de impedir que eu me perca e me sinta passada para trás, por todas aquelas regras que eu mal sei quem dita. Não há tradutor de intenções, e principalmente quem saiba o que está fazendo.
Eu também não sei nada disso. Mas sou constantemente tomada pela consciência de que preciso rascunhar e apagar o quanto for preciso. E que uma folha sem palavras pode fazer a vez de uma única: vazio.


Estar, permanecer, ficar, ser.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

domingo, 25 de julho de 2010

Das coisas que me fazem perder metáforas.

Incondicional e independente. Pensei que essas palavras fossem permanentemente ligadas à felicidade de quem se gosta. Quem me ensinou isso - e deve ter sido a vida -, me enganou feio.
Entendo que encontramos uma bifurcação e cada um de nós optou pelo o que o outro já viveu. Entendo, não julgo, não questiono, apenas entendo.
Depois de algum transtorno e perseguição, aprendi que é fase e naturalmente apoiei. Já guardei tudo o que houve de bom, esperando o momento de abrir caixa por caixa, gaveta por gaveta até encontrar aquelas com feixes coloridos que havia perdido.Mas nada disso significa que eu desejo que encontrem as caixas por mim. O que cabe a mim, cabe a mim e a mais ninguém.
Não há problemas em assumir egoísmo e qualquer outro erro, só não posso trair o forte sentimento de que pra ser, tem que ser meu. Essa convicção e inflexibilidade estão beirando a aceitação. E eu irei aceitar, sem maiores escândalos, demonstrações e palavras. Mas não irei concordar, felicitar, torcer e comemorar. Ainda quererei como quero; Ainda sonharei como sonho; Ainda planejarei como planejo. Tudo para que, no exato momento em que decidir ser e estar, seja meu, esteja comigo e com mais ninguém.
É o poder da madrugada, agravamento de simples pensamento, e exposição de uma única certeza: tempo, tempo de novo.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sorriso

Pessoas em fase adulta costumam dizer que representam alguns personagens diariamente, para cumprir suas funções na sociedade e poupar (ou estabilizar) as dores de cabeça na vida. Mal sabem elas que não aprenderam a atuar na marra, já nasceram sabendo.
Desde criança uma força interior, aguçada por outra exterior, mostra que sem forte dramatização algumas coisas não são alcançadas. Basta reparar em uma criança numa loja de brinquedos, no setor de doces do mercado, no dentista ou no parquinho. Sem o choro desesperado e exagerado o brinquedo não seria comprado, não haveria doce antes do jantar, não receberia mimos e promessas por não morder o dentista, e não teria agrado algum depois da imperceptível ralada no joelho. A arte de chorar pode causar alguns estragos, enganar algumas pessoas e chantagear emocionalmente. Mas a ferida não é maior daquele que finge sorrir.
Quando quero, e principalmente quando não quero, faço jus ao meu nome: atuo como ninguém. Sorrio pra gente grossa, após uma ofensa, pra quem erra meu troco ou me atende mal, e ainda mais pra quem me chateia. Poucas coisas fazem meu sorriso falhar e ser pouco convincente. Mas quando fazem, não há escola de arte ou retirada de duas letras no meu nome que sejam plenamente potentes pra me fazer fingir.
Agora, meus dentes estão presos numa mordida tensa, engolindo desabafos e puras verdades. Estão tentando unir forças para morder bravamente e me distrair de uma dor maior, que tá aqui dentro. É um sentimento novo, mal sei se comparo com perda ou tristeza. Só sei que é muito mais desesperado do que a ideia de não ter em quem pensar. Tem sido pior que carência, e poderá ser maior que qualquer desilusão amorosa. Não estou pronta - nem nunca estarei!- pra perder um pedaço enorme de mim. Que apesar de não ser do mesmo sangue, segue a sina para que seja tão forte como se fosse.
Três sempre foi meu número da sorte, e em algum lugar deve estar escrito que assim sempre será. A genética uniu dois, e o terceiro veio pra completar tudo o que faltava: o bom humor incondicional, as ideias incabíveis, a ingenuidade e falta de pés no chão.
A falta de perfeição sempre me trouxe alívio por saber onde estar. Mas não deveria ser tão real ao ponto de doer. De pouco em pouco, sem perceber, alguns buracos ficaram pelo caminho e não devem -não é possível que possam- serem preenchidos por lembranças e nada mais.
Todas as avós devem dizer por aí, que nada acontece por acaso e que alguns males vêm para o bem. De males, estou satiafeita. Quero os bens, os acertos e a prova de que o acaso foi generoso em fortalecer laços inquebráveis. Já estou pronta para no meu melhor estilo, engolir algumas pedradas, me humilhar e esforçar sem reconhecimento só para poupar, que a noite meu ser possa doer mais que meus braços.
Eu preciso, e você também. Apesar de tudo que tem se mostrado errado, ou mal sincronizado. O pior erro seria vivermos distantes. Três é meu número, e você é o terceiro sorriso.

sábado, 29 de maio de 2010

Maio

Eu me enganei. Pensei que somente a ausência refletisse na falta. Mas o excesso me trouxe um silêncio maior, e mais doloroso. Eu me enganei. Pensei que não houvesse sábado que não fosse cura, amigos que não servissem de consolo.
Com engano atrás de engano eu fui me esquecendo tanto de que você precisa viver seus outubros de sol, quanto que também pode precisar de julhos de frio. Há um ano eu revelei qual era o segredo, e somente agora você soube usá-lo, e talvez nem saiba disso. O desdenho não me é problema, congelar, duplamente, tudo o que eu poderia querer fica fácil quando não existem desequilíbrios.
O desequilíbrio me parece mais forte e verdadeiro que borboletas amarelas de Babilônia. E talvez seja o máximo que eu possa te dar. Mas se quiseres ainda tem meu calor.
O grande problema da realidade é crer tanto na crueldade e esquecer-se de fantasiá-la; É ver em tudo drama, de braços cruzados por um dia quente; O problema de querer que não existam mais domingos é perceber que as segundas-feiras são melhores que sábados.
Posso estar de olhos vendados no sol, mas isso significa que eles estão atentos no escuro: feliz é aquele ignorante que não percebe (e nem quer) nada.
Em tanta cegueira, os goles amargos que tomo só me fazem engasgar, e o descontentamento me sufoca em mais e mais silêncio. A minha falta de agradecimento transforma-se em repugnância por eu não ser corajosa o suficiente para sorrir um pouco. Eu traíria o que sou se pudesse fazer da água vinho.
Num antro pessimista e fundo já posso pensar nos outros sofrimentos que virão, nas flores feias que escolherão.
Não posso ser o que quero. Só consigo ser o que sou nessa fase ruim, nesse Maio ruim e argh.
Time cure hearts.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Maçã Vermelha

Certa vez me disseram que pouquíssimas pessoas conseguem se realizar inteiramente num ofício, não duvidei. Pelo contrário, custei a acreditar que poderia um dia conhecer uma dessas pessoas. Em qualquer ambiente de trabalho é automático identificar os infelizes. É ridícula a facilidade em encontrar pessoas que se sentem, literalmente, em um "tripalium".
Além dos completos descontentes, existem os conformados. Ou são aqueles que, depois de muito custo, se acostumaram com a rotina, ou aqueles que deixaram de ver prazer no que fazem após certa desilusão. Algumas pessoas passam a vida toda procurando o amor de suas vidas, ou até mesmo sem saber que não o encontraram. Com a vocação profissional não pode ser tão diferente.
Certas pessoas, por inúmeros motivos, não conseguirão encontrar sentido no que fazem, ou não encontrarão algo que faça sentido, e pior, podem não perceber que não são felizes no que fazem. Acredito que tudo também dependa do estado de humor também. Após um engarrafamento de três horas, uma reunião estressante ou prazos curtos para cumprir tarefas, qualquer um pode reclamar (baixinho ou aos berros) que escolheram a profissão errada.
Porém, poucos nascem com o dom de amar o que fazem, encontrando energia em difíceis tarefas, exalando brilho nos olhos. Algumas profissões são mal interpretadas, classificadas como castigo e penitência. Mas geralmente guardam uma essência rara, que somente quem ama o que faz pode enxergar e sentir.
Enfim conheci alguém que vive para o que faz. Cada dia é marcado por motivação, paciência, educação e otimismo. Cada nova aula é de fato uma aula de esperança de que o ser humano é capaz de construir uma convivência sadia e igualitária. Parte de cada um aproveitar, ou ignorar. Dependendo do ponto de vista tudo não passa de enrolação e desperdício de tempo. Pobre de quem perde a chance de sentir, tão de perto, a pureza de alguém que ama o que faz.
Aqueles treze minutos fizeram a felicidade de quem estava farto dos números, a alegria de quem sentia sono e a distração de quem se dispôs. Crianças falavam numa língua estranha, tijolos estavam sendo feitos enquanto a professora pedia que fossem à aula. Celular, torre? Substantivos simples eram abstratos e utópicos para aqueles pequenos, que mal podiam concluir o efeito de suas vidas na humanidade.
Boas metáforas, fortes mensagens e várias interpretações. Tudo corria como o padrão, até que fui surpreendida pela pausa na fala. Olhei na direção e lágrimas estavam sendo contidas, sem sucesso. Aquele impulso involuntário foi além de um bom coração ou sentimentalismo. Ele traduziu uma alma apaixonada, que não vê diferenças, apenas desigualdades. A alma pura de quem sonha com a mudança, tem como sonho formar bons cidadãos. Uma alma que chora por ver falhas, por ser desiludida e rasgada pelas garras da imperdoável verdade.
Um pedido de desculpas e palavras soltas antecederam um silêncio respeitador e rico. Encontro motivação no que você faz. Não comparo à perfeição, mas sigo de exemplo como é dedicar todo o seu amor a quem nem mesmo sabe disso. E quem agradece aqui, sou eu.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

It's about time

Não adianta insistir. Quando eu não quero uma coisa e acredito nessa ideia, nem mesmo uma outra ideia de que o contrário seria o melhor consegue parecer, para mim, suficientemente melhor ao ponto de passar a querer o que antes eu não queria.
Poderia ser mais simples que isso. Mas seria fingidamente prático da minha parte resolver tudo de maneira tão certeira. Por mais confusa, indecisa e contraditória que eu possa ser, no fundo sempre permanece um broto dormente que indica o que poderia ser fatal. Confortavelmente posso me excluir de toda a culpa por ser tão difícil: não estou sozinha. Talvez ajude perceber que o instinto natural do ser humano é fugir do que pode lhe fazer bem, desde que o bem esteja em completo desacordo com a vontade inconsciente. Ajuda, mas não resolve. Ter aceitado todos os conselhos e feito o completo contrário poderia me livrar do peso das minhas decisões. Mas ainda não resolveria. Inclusive poderia ser ainda pior.
E eu estava ciente de que essa responsabilidade viria a cair sobre meus ombros, eu assumi o peso por não saber ser inconsequente e precisar, a todo momento, encontrar sentido dentro de mim para o que faço. Esse mesmo sentimento de busca agora me perturba, e me faz querer tudo o que abri mão, numa simples vontade de tomar dessa água.
Talvez eu não fosse tomada pela ansiedade se te conhecesse melhor e soubesse como jogar o seu jogo. Talvez eu não fosse tomada pela angústia se te conhecesse menos, e não soubesse que você não usa jogos, e muito menos sabe usá-los.
O pacote de sementes, que encontro em todos os lugares, poderia ser útil se eu soubesse como usá-lo. Mas a ansiedade me cega, e eu já não consigo saber se estou em busca do que faria germinar, ou apenas do que faria florescer. As últimas flores brotaram coloridas, e poucas até mesmo perfumadas. Flores morrem, ficam murchas e perdem a graça. Um broto que germina está fadado a crescer, a realizar respirações continuamente e alimentar-se com fotossíntese. Mas eu não sei para qual efeito a terra está favorável.
Os feixes de luz coloridos, que antes passaram despercebidos, agora podem fazer a gema apical mudar de sentido. Tudo pode estar prestes a mudar, ou a permanecer tediosa e superficialmente igual. As flores costumam ser tão bonitas que cansam, tão perfumadas que enjoam. No meu outono talvez não haja lugar para elas. E está na hora, de fazer com que algo no jardim seja meu.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Trufado

Entrei rápido no quarto, carregando uma porção de coisas que deixei em cima da cama. Enquanto abri o armário, mal prestei atenção em qual gaveta estava vasculhando, afinal estava imersa nos meus pensamentos e nas tarefas a cumprir naquela noite. Comecei a me trocar, com pressa para não perder tempo nessa ação sem importância. Até que ouvi vozes, em coro, cantando.
Parei pra ouvir e abri a veneziana atrás da janela emissora do som. Em meio aos latidos dos cachorros da rua, pude identificar um canto de feliz aniversário, de umas quatro ou cinco pessoas no máximo. A voz de um homem adulto puxava o resto do coro, com uma voz feminina no meio. Pela intonação presumi que fosse aniversário de uma criança. Mas, seu nome foi confundido com o ônibus que desceu correndo pela rua, desrespeitando a placa de 60km.
Com as luzes apagadas, o flash se destacou e então não tive dúvidas de em qual janela velas estavam sendo apagadas. Algumas vozes femininas desempenharam o papel, geralmente das tias, em expressar felicidade, com orgulho e entusiasmo (na maioria das vezes, forçado), através de gritinhos "êêê".
Alguém acendeu as luzes, e pela iluminação da janela da lavanderia, comecei a imaginar que a mãe teria assumido a missão de cortar os pedaços de bolo. Todos ficariam em silêncio para comer, e certamente alguém perguntou quem fez o bolo. E, mesmo que da boca pra fora, pediu a receita.
Quando parei de ouvir as vozes, perdi meu olhar nas outras janelas dos prédios, e em meio a ventiladores de teto ou iluminação azul da televisão percebi que, minutos atrás, estava agitada e focada em não perder tempo mas, me distraí com algo tão simples mas tão significativo quanto um parabéns a você.
Enquanto essa quarta-feira representava, para mim, apenas o meio da semana e um passo mais perto do fim de semana, ela estava sendo especial para alguém. Deve ter sido esperada por alguém. A partir de então, me vi sentada, sorrindo. Contente pela paz daquele apartamento, tranquilizada pela felicidade. Satisfeita por aquele dia ser especial para alguém.