domingo, 27 de novembro de 2011
Szívem
sábado, 26 de novembro de 2011
Vinte e seis
A manhã começara me distraindo com algo entre física e geografia, num ar condicionado gelado que ardia os olhos de quem havia desacostumado a acordar tão cedo. O calor da hora do almoço triplicou dentro do carro parado no minhocão. O trânsito ia me atrasar e eu não podia. Salva por alguns minutos, cheguei a tempo de um grande abraço e palavras boas. Mergulhos na ressonância e eu já dava braçadas de encantamento. Quis sair rabiscando as paredes da casa toda mas, de novo, eu precisava correr.
De frente pro espelho do banheiro-camarim eu arriscava os passos que tinha de cor mesmo sabendo que algum faltaria no momento certo. Uma sombra preta atrapalhada, barulho de todos instrumentos sendo tocados ao mesmo tempo e pedidos inúteis de silêncio, eu não era a única ansiosa.
Pessoas mais atrasadas do que eu, vozes trêmulas e velas que não paravam acesas. Planos de uma sexta a noite que mal começava e passos animados no canto do palco prontos pro acorde combinado. Entrei, dancei, errei e não pude enxergar nada além de um palmo à frente e luz me ofuscando a vista. Estaremos juntos no ano que vem, abraços e o choro que não saiu.
Pela última vez no dia eu estava atrasada. Ainda deveria comer a pizza o mais rápido possível e mostrar que eu podia. Foi quando me lembrei que mal tinha pensado em tudo o que deveria ser feito, nem mesmo numa roupa poderosa ou um drink desencanado pra segurar na mão desatenta. Mas a imagem, no meio da pista, a minha mente estava decorando com esmero.
A pizza tardou a chegar e eu me vi desviando o plano perfeito. Poucos caracteres num pedido de desculpas e me vi esperando algo maior - que, na verdade, resume-se numa desimportância quase extrema. Você cogitou o vestido amarelo e acabou no casaco azul bebê. Eu fui de couro.
Conhecia aquela rua, mas não imaginava qual era quando li o endereço. A casa transbordava de gente, o portão estava aberto mas eu liguei antes de entrar. A sala de estar não estava menos abarrotada. O sofá arrastado, o tapete amarrotado e a mesa vazia. Todos os objetos deviam estar trancados dentro dos armários para evitar maiores problemas. Mas a medida de prejuízo foi pouca.
Ganhei um copo de plástico e reconheci os convidados na cozinha em meio a outros que já passaram do ponto. Dali eu podia ver, pela janela, o quintal, com tantos outros rostos que eu mal começara a decorar os nomes. Um rodo limpando o chão, e você batendo a cabeça na geladeira. Nos sentamos no aparador da sala de jantar, de frente para a mesa com sacos de salgadinho rasgados. Algumas palavras insistentes, convidados de uma festa de debutante e em dois flashes havia alguém em cima da mesa, gritando que a festa havia acabado. Gritou, apenas. A festa custou terminar.
Em pé na sala de estar conversávamos floridamente sobre coisas floridas. Algo entre os porta-retratos ao lado da televisão e os autênticos documentos de identidade que justificavam os copos nas nossas mãos. Apenas cinco sirenes de polícia depois alguém gritou que apenas os convidados deveriam permanecer na casa. Ou seja, a rua automaticamente sofreu com a superlotação de pessoas evitáveis, inevitáveis, substituíveis e insuportáveis.
Subimos a rua, nós três, para chegar ao táxi. Pessoas, que de tão conhecidas se tornaram todas iguais, fizeram piadas que voltamos para ouvir. Roupas de mulher, conversas virtuais, feriado, quinze dias atrás. Juntei as informações e entrei no táxi, aliás, um dos poucos legados sobreviventes daquela época. Tão logo cheguei em casa já me esqueci de tudo.
Mal lembro o que comentamos depois de tudo o que passou, aliás, se comentamos alguma coisa depois. Exatamente por não imaginar o que viria depois minha memória exclui os maiores detalhes. O caos de um dia que haveria de ser completamente diferente do que foi, refletido no que não esperávamos que fosse hoje. E agora você segura naquela mão e eu, mal me aguentando de ansiedade na coxia, espero pela próxima cena.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Maracujá
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Calendário
Separando cada dia com um quadradinho me faz lembrar minha noção infantil do passar dos dias. Quando comecei a entender que dormir virava o dia, enxergava uma linha contínua cheia de quadrados, como uma amarelinha, e me via pulando cada um deles toda vez que alguém dizia "daqui três dias..." Minha imagem mental talvez não tenha mudado muito, e muito menos agora que eu realmente pulo os quadrados. Pulo e os desenho.
Quando paro pra pensar qual roupa vou usar em tal festa penso junto qual será o desenho para aquele dia. E eu nunca adianto as informações, o espaço só é preenchido após serem completadas as vinte e quatro horas correspondentes. Pego o porta-canetas, sento em frente ao calendário e penso o que quero deixar marcado daquele dia, ou como toda teimosia na minha vida às vezes escrevo o que devo e não o que quero.

Registro as músicas tocadas repetidamente, viciadas no meu ipod e que são o que estou ou o que sou. Depois, tomo o cuidado em não repetir cores e tento desenhar. Tento, pois quando erro colo adesivos feios em cima que de nada adiantam por gritarem: "alguém errou por aqui".
As franjas beatlenianas e os trechos escolhem, sozinhos, dias para preencherem de vida, ou de suspiros, a cada mês. Me vejo imaginando quais serão os desenhos do mês começando e faço balanceamentos dos que estão pra acabar. Apenas sento e penso no meu dia, no que pensei e ninguém sabe, no que falei e todo mundo ouviu. É repetitivo, decodificado e com mais letras que desenhos. É o meu lovesick diary, como não poderia ser diferente vindo de mim.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Meia-calça
domingo, 2 de outubro de 2011
All happening
Enquanto houver fôlego. Piadas boas e os acordes repetidamente viciados. Na verdade, nós não somos o mesmo. Apenas nos tornamos o mesmo quando. Quando estamos. Juntos.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Last Year
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Time cures heart
domingo, 22 de maio de 2011
Anti-herói
Duas cicatrizes no queixo. Três pontos para
uma brincadeira de cobra-cega quando criança, cinco pontos para uma queda de skate
durante uma manobra, já adolescente. Marcas que não sem propósito costumam
caracterizar quem não costuma ficar tempo demais no sofá. Na ausência de uma
nova cicatriz, o zumbido doloroso da máquina de tatuar estava, naquele momento,
registrando uma nova fase de vida. E não necessariamente como uma atitude
desenfreada e instantânea como um corte que sangra, e sim como uma linha fina
que também sangra, mas segundo por segundo registra na pele o que a vida se
encarregou de fazer até aquele momento.
Quem
o ouve falar baixo e devagar mal imagina que a calma não impede que a
personalidade forte transpareça. E paradoxalmente as pausas nas frases bem
pensadas transmitem força. Sem parecer rude, apenas forte. E por ser forte é
também verdadeiro. Não há equívoco ao achá-lo correto ou transgressor demais.
Sem
ser contraditório, Laercio aglutina a atitude de quem já subiu em janelas pra
pichar muros, mas não por falta do que falar: exatamente por sobra do que
dizer, como quem lê e tem uma resposta firme pra tudo. Certa vez pegou o último
trem partindo de São Caetano, e com seus amigos e algumas latas de spray desceu
em Mauá para deixar marcas urbanas nos muros da cidade, que nenhum deles
conhecia muito bem. Enquanto ele e um amigo pichavam um prédio, outro ficou encarregado
de observar a chegada de qualquer estranho a eles, e não deixou de cumprir a
missão em avisar: a polícia veio e cada um deles correu para um lado. Mesmo sem
as latas de tinta, as mãos ainda estavam sujas e não pôde fugir das viaturas
que os perseguiam separadamente. Quando questionado sobre estar pichando,
negou. Mas a criatividade foi falha ao justificar estar indo para casa, àquela
altura da noite. Sem demora foi colocado dentro da viatura e foi de encontro a
outro amigo que também havia sido pego.
Em
momento algum conversou com seu amigo, apenas o observou de longe enquanto os
policiais riam e combinavam a regra do jogo: a cada vez que ele desse uma
resposta negativa, seu amigo situado há alguns metros em outro muro sofreria
consequências. Concordar com os questionamentos sobre estar sujando as paredes
ou ter vontade de ir até a delegacia parecia incoerente. Mas ao mesmo tempo em
que seu amigo recebia os murros sem poder ouvir as respostas, ele sabia que ao
ver o amigo balançar a cabeça negativamente não ficaria barato para ele também.
Passados dez minutos de tortura psicológica ambos foram liberados. Com vários
hematomas, mas aparentemente não o suficiente para aprender a lição.
Outra
vez foi necessária, e nesta tapas ou arranhões não foram as medidas tomadas.
Teve que cumprir trabalho voluntário na Escola de Ecologia, local em que teve
gosto em ajudar. A pior parte era alimentar as cobras. E não só pela sensação
de risco ao abrir o viveiro do animal, mas também pela necessidade de dar ratos
vivos como refeições. Cobras, num ambiente de estudos e exposições, têm mais
validade que um mero rato, não podendo correr o risco de que num momento de
distração seja atacada. Como precaução, os ratos deveriam ser dados à cobra
após um tratamento de choque: eram pegos pelo rabo e levemente batidos numa
mesa. O suficiente para ficarem zonzos, sem que os ossos se quebrassem e
tivessem que ser substituídos por outros ratos.
Desde
cedo lidou com a arte gráfica e seus primeiros trabalhos foram aos quinze anos,
quando nem mesmo sabia qual quantia decente deveria ser cobrada. Dezoito meses
de curso técnico em publicidade e propaganda abriram ainda mais seus olhos para
perceber que a arte que fazia em muros, primeiro com grafites e depois com stickers poderia certamente ser feita
pra vida inteira. Depois desse momento nunca mais teve dúvidas de que tinha uma
relação vital com o design, sendo essa uma das poucas e mais reais verdades em
sua vida.
Cursou
a faculdade de Design Gráfico custeado pelo ProUni sem que a dedicação viesse
somente pela obrigação em tirar boas notas. Por um tempo utilizou um caderno
feito com folhas escolhidas à dedo: tons de azul, algumas folhas pretas no fim
e uma capa de papelão bege. Aproveitava cada pedaço das folhas para desenhar e
fazer anotações na borda, com uma letra geométrica, expressiva e não menos
artística. Sempre viu brilho nas aulas teóricas de História da Arte, que
valoriza tanto quanto as práticas, pela necessidade de formação consciente. Por
descuido e euforia de começo de semestre, faltou a algumas aulas de
Antropologia e precisaria tirar mais pontos do que o previsto. Ao conversar com
o professor, aceitou a proposta: se proporcionasse ao menos duas discussões
verdadeiramente boas durante as aulas, seria aprovado. Passado o período o
professor não pensou duas vezes, disse que cada comentário não proporcionou
somente duas boas discussões como também o semestre mais acalorado e proveitoso
da disciplina. Laercio fala, mas fala com propriedade.
Muito
do que sabe aprendeu com o pai, que quando jovem deixou de lado os estudos em
Engenharia na Unicamp para lutar no movimento estudantil. Não é à toa que
discute política com interesse e conhecimento de quem não lê jornal apenas os
títulos nos portais da internet, e sim de quem cresceu pautado nesses temas. É
na mesa do jantar que discute com o pai coruja, que o espera chegar em casa
todos os dias, os assuntos que aconteceram ao longo do dia. Aposentado, seu pai
faz questão de ir todos diariamente até a banca de jornal para comprar a Folha
de São Paulo. Não quer saber de assinaturas mensais, receber o exemplar em casa
acabaria com uma das atividades mais animadoras da manhã.
É
também nos jogos de futebol que acentua os laços familiares. São paulino desde
pequeno, costuma ir assistir aos jogos com o pai sem que caia no clichê da
relação pai e filho. Vê num pai uma figura de base, e só se interessa em ir às
festas de família se o pai for, para que assim tenha com quem conversar. Chama
a avó de abuela e diz que os
palavrões nunca são medidos na hora das refeições. De origem espanhola, fala da
cultura como quem conhece mais que a comida e dança típicas. Tem uma irmã mais
velha de quem pouco fala, e um primo que considera muito. Demora para
encontrá-lo, mas quando o vê, dá problema. Conta de viagens repentinas, pouco
conscientes e com consequências econômicas a serem recuperadas por meses à
frente. E ainda terá muito o que contar.
Aliás,
o próprio apelido, que por senso comum não costumam ter explicações, possui uma
história. Hoje caracteriza o apelido como uma atitude meio prepotente, já que
deu a si próprio. Com um nome que não possui sílabas sonoramente fáceis e
práticas, adotou o termo monossilábico Lex. Precisava de algo curto e fácil que
pudesse ser utilizado para assinar seus desenhos. Não encontrou saída melhor do
que um apelido que faz alusão ao seu nome e ao mesmo tempo opõe-se ao Super
Homem. De Lex Luthor a Lex Lopo, nasceu o anti-herói.
Através
do vidro que separa a sala de espera do estúdio do tatuador pude acompanhar a
cara de dor para a agulha que cobria lentamente sua costela esquerda. O desenho
foi escolhido para representar algo que considera transcendental: a mudança
para uma fase madura, de certezas e perspectivas positivas. Um desenho forte,
significativo e apesar ser uma caveira, é extremamente vivo. Uma escolha mais
madura e pensada ao contrário da primeira tatuagem que carrega no braço
esquerdo, da qual se arrepende, não gosta de mostrar e pretende encobrir. Fruto
de quem aos catorze anos acha que tem todas as certezas do mundo. Mas não
exatamente precipitado.
Laercio
Lopo Juarez hoje trabalha na agência de publicidade Mccann, onde apesar do ambiente descontraído não possui
responsabilidades menores. Entra para trabalhar no meio da manhã sem saber a
que horas será possível voltar para casa. Já chegou a passar dias inteiros
trabalhando, com colegas de trabalhos tão expressivos quanto ele próprio. De
tão aberto, o ambiente de trabalho chega a tornar-se cruelmente sincero quando
os colegas já não censuram respostas grossas ou piadinhas para ele, que sempre
chega depois das nove. Uma resposta áspera bastou para que não fizessem mais
comentário algum, sem crises, sem brigas.
Sempre
gostou mais das pessoas introspectivas e aproximou-se de quem seria normalmente
considerado estranho. Foge de tudo o que é superficial, sem se limitar a
encontrar sentido em tudo o que faz. Odeia quem anda de patins e se irrita
fácil com gente ignorante. É eterno adepto do papel e caneta, e acha que nada
substitui o cheiro de livro novo entre os vários que ocupam suas prateleiras –
já sofrendo com a falta de espaço para novos exemplares.
Quatro
horas depois, Lex saiu do estúdio com a tatuagem contornada, ainda como um
esboço do que completará o ritual de passagem. Antes seu armário de roupas era
composto por camisetas brancas, pretas e cinzas; hoje possui inúmeras camisas
xadrez. Muda de fase com um passo firme ou em uma acentuada manobra de skate.
Acentuada e mutável. Assim como o paradoxo de ter ao mesmo tempo uma aura que
transmite paz, mas que não deixa de queimar por dentro.
Seus
vinte e poucos anos parecem já ter delimitado sua personalidade. Mas assim como
é impossível criar uma arte sem ao mesmo tempo destruir outra, o seu desenho
nunca estará pronto. Como numa tatuagem sem fim, que enquanto a figura ganha
mais adornos e parece cada vez mais bonita aos olhos, ela não deixa de sangrar.
E ser viva.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Anos-agora
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Você tem meia hora
terça-feira, 1 de março de 2011
Littera
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
De frente ao mar
Abrir mão, enquanto ainda se pode ter nas mãos parece algo pouco inteligente. E meu ego me reprovou em cada atitude que agora tirou da reta as flores na porta de casa. Mas eu sou piegas.
Quebrei o que poderia facilmente ter quebrado, e agora ultrapassei o inesperado. Não encontrei mais nenhuma regra a ser seguida, além daquela voz que pertinentemente gritou para que eu desse um passo de cada vez e vivesse uma história por vez. E errasse por me ser, para no fim, me acertar.
Terminar uma coisa que não começou soa como algo muito calculista (algo muito vindo de mim), e eu nunca tentei tanto e nunca quis tanto que a situação fosse tomada por causas naturais. Mas não foi. Não penso em me desculpar e não sobra qualquer espaço em mim para que eu sinta culpa. Eu só fico com saudade do que acabei de impedir que aconteça, do que eu senti e poderia sentir.
Contudo, eu já me sinto forte. Exagero nas palavras, e essa atitude inédita de tomar as rédeas parece muito mais de carne e osso do que sentar e esperar, ou do que manter perto o que me faz bem pra quando quiser o bem - só para quando eu quiser. Não estou esperando ser canonizada por atitudes altruístas. Inclusive, vejo mais egoísmo que altruísmo em meus atos.
Estou pouco preparada pra lidar com caixas vazias, páginas mal respondidas e comportamento virado do avesso. Mal sei o que fazer com essas paredes, que não possuem ouvidos mas são tão sensíveis que absorveram cada lembrança sua. E, agora, elas lembram de você antes que eu cogite pensar nisso.
A história não acaba aqui. As ondas nunca vão parar de avançar na areia. Pelo contrário: por mais forte que voltem ao mar e quebrem nas pedras, a calmaria retorna aos pés na beira da areia molhada.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Coisas do Mundo
Em pleno verão o mundo resolveu fazer inverno. Os céus sabiam que não era dia de festa: aquele era o último momento em que eu me sentiria enorme, mesmo com 1,67 de altura. Era a última chance de ser feliz.
A última coisa que eu poderia demonstrar era fraqueza, logo eu que fugi de cada agrado, elogio ou promessa. Incrível como sem nem mesmo pensar pra isso eu já agia normalmente, falando mais que fazendo e esperando cada afeto por sua vez. Mesmo que no fundo eu quisesse fazer o mundo todo parar e me deixar ser feliz pra sempre.
Ao contrário do que dizem, o tempo não passou rápido demais. Foi devagar, e cada vez mais difícil e silencioso. Por mais que eu não tivesse coragem de carregar minhas palavras com tudo o que eu sentia, meus olhos deveriam entregar a verdade: eu já sofria. Sofria mas ficava o tempo todo em dúvida se o sentimento era merecido ou mais um dos milhares disperdiçados. O meu subconsciente me prega peças e eu quase dei razão pra cada bronca que levei.
Mas foi aí que eu lembrei que era tarde demais pra ser especial, não havia mais tempo de fazer mais parte de algo que não sei se pertenço, ou pentencia. Fiz o meu melhor, em algum lugar deve ter ficado um pedaço de mim. Numa mordida de maçã, numa música velha ou em um coração.
Apesar do sono absurdo, culpa de todo o cuidado e dedicação em escolher cada palavra que fizesse sentido (sentir), eu não dormia pensando se uma folha de papel me faria ser menos ou mais. Menos significante, menos comum, mais babaca ou mais importante.
Entreguei. Destrui todo o momento especial com palavras grossas e uma risada desesperada. Mas assim eu não iria conviver com a dúvida e a falta de certeza de que agora sim, eu fiz tudo o que eu pude.
Respirei fundo em cada contato, em cada olhar fundo. Prestei atenção na mesa posta, nos documentos, nas roupas nos cabides e em cada música no violão. Guardei como eu pude cada carinho e esforcei pra que esse subconsciente retardado guardasse a ordem cronológica detalhadamente.
Sempre chego à conclusão de que fui menos. E sou pega no arrependimento de não saber escolher as palavras e atitudes certas. Mas talvez eu deva parar de tentar mudar meu jeito de resolver as coisas. Eu sou assim. E jamais demonstraria que daquele dia em diante seria difícil. E será.
Quando entrei no elevador a pressão do mundo já parecia outra. Eu me sentia muito mais leve, muito. Mas isso é completamente distinto da sensação de alívio. Não me livrei de um problema nem de um mártir. Eu apenas já me sentia vazia.
Quebrei as regras das regras que eu já havia quebrado. Mas desde o começo, lá no fundo, eu já sabia que a cada vez que eu dizia ter certeza do que estava fazendo eu me perdia mais.
E assim fiquei. Eu nem sabia por onde começar. Passei a conferir insanamente alertas no celular e foi aí que eu toquei: acabou. Meus dias não serão mais cheios de atenção e de planos antecipados pro fim de semana. Nas sextas a noite meu rumo não será definido com duas ligações ansiosas. Eu poderia até mesmo agradecer por não ficar mais em cima do muro com cada oscilação frequente de afeto. Mas até disso eu vou sentir falta.
Estou sendo dramática de um jeito que disse não ser necessário, mas é quase engraçado de tão injusto que o destino me parece. Não pedi mais além do que eu pude dar, e mesmo assim recebi o suficiente pra completar os meus dias.
Não é à toa que eu seja forçada a me livrar de algo que me faz bem, e mesmo que eu já havia sido avisada que isso seria necessário, só me resta esperar que eu tenha sido algo também. Não sou de forçar situações e sei que jamais ocuparia o lugar de alguém mais presente e mais importante. Não há como comparar ou eliminar anos de afeto em detrimento de dois meses. Nunca tive essa ilusão.
Mas só espero que de alguma maneira sobre algo a ser lembrado, algo bem guardado. Assim como há em mim. Não consigo saber ainda o que eu farei com os meus dias e com essa minha cabeça teimosa, que insiste em pensar em você. Não me sobrou nenhum plano de ação além do de tentar ser feliz, mais uma vez.
Agora eu sei, que despedida é uma das piores coisas do mundo.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Não apenas uma, mas aquela de amor.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Castelo de areia
É exatamente o momento em que não há condições de se passarem muitas coisas pela cabeça além do fazer ou não fazer. E tudo se resume na enorme besteira de guiar os seus atos já pensando no que os outros irão pensar. Começar a dizer que não me importo é a maior afirmação de que exito por me importar.
Isso me remete à longa e dura transição do ser ou não ser, obrigatoriamente embutida na vida de quem se aventura a viver. Pode até ser que haja vida, e boa vida, além disso. Mas, a minha ganhou cores a partir do momento em que as duas caixas derramaram seus conteúdos no chão. E não houve mais distância, diferença e empecilho entre os de lá e os de cá.
Foi assim que me lembrei de que não há segredo. Que o justo fato de não ser naquela época está me fazendo ser agora. Ser alguém pra que se saiba que existe, sem as manchas de quem já existia.
Não houve mais limite, e eu não pude me desprender do peso de quem, mil quilômetros depois, vai me julgar pelas minhas escolhas. Faço bom uso do álibi. Terra sem lei, atitudes sem lei.
As linhas em branco receberam tudo aquilo que elas não estavam prontas pra receber. Mas ainda assim, tudo o que faltava pra completar o capítulo. Muito teria sido diferente, para menos, sem os detalhes de afeto e desafeto. As histórias contadas seriam outras. Se é que haveria alguém para ouvi-las.
Todo álibi depois, não existe isso de pregarem com pregos de aço as histórias, cada uma aonde aconteceram. Elas voltam, dentro do maleiro do avião. E aqui reaparecem, consequência por consequência. Julgamento por julgamento.
O castelo foi construído. E apesar da fraca fundação, das rachaduras, e das frequentes e insistentes ameassas de tempestade. Mas eu quero que ele continue de pé, pelo menos até a data do fim.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Since
Foi no momento em que eu abri uma janela que você fechou outras duas? Ou foi quando eu tapei o sol com a cortina que você se protegeu com óculos de sol?
Vejo um muro divisor. Grande em todos os sentidos (assumo todo o rancor comparativo), mas ainda assim pequeno. Pequeno de positividade, pequeno de atitudes e situações concretas. Transbordando de sonhos utópicos, alegóricos. Sonhar tem sido pouco.
Ainda que eu me veja coberta pelo sagrado manto da razão, não esqueço o outro lado da moeda. A coroa me incentiva enquanto a cara me mantém com os pés no chão. Basta virar a moeda para que eu seja exibicionista, vulnerável, e mais uma. Enquanto você é quem tem o real valor, quem a mãe passa a mão na cabeça enquanto consola, que o mundo é sim ruim, mas quem é realmente bom tem seu lugar guardado. Você tem todo o talento do mundo, cabeça forte, personalidade e apoio familiar. A idiota aqui, sou eu. Eu quem faço tudo errado.
Dia-a-dia me consumo em favores da qual nunca fui obrigada ou recompensada. Fico articulando palavras e tentando me colocar numa gaveta que não caibo mais. Até uma criança já teria resolvido seu problema dividindo suas canetas coloridas novas pra cativar amizades. E eu continuo a passar, dia após dia, pensando quando é que isso vai acabar.
Mais quatro, cinco, seis anos é mais do minha capacidade apaziguadora pode suportar. Até lá, tudo o que permaneceu entalado, como biscoito água e sal, terá me transformado no que eu sei que não sou, e que não preciso ser relembrada.
Que assim seja. Assumo a imbestilidade ou qualquer desgraça que me for classificada, com um dedo indicador que só desqualifica. Por alguém que separa por defeitos, e que o melhor é menos pior.
Acima de qualquer discurso furado de quem acha que venceu mais uma batalha: cada passo que me afastou de você, e que aproximou a muralha das lamentações, me fez bem e satisfeita. Não me arrependo de cada passo novo, e de cada pedaço que me coloca onde eu quis. História de vida.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Adrenalina
Logo eu, que por tanto tempo evitei as filas de quatro horas por alegar queda de pressão, fui designada aos trilhos de madeira. Que por si só, sacolejam como batedeiras de bolo. Ainda sem um cinto de segurança que prende pelo peito, apenas uma barra fina na cintura. E de costas, pressionando o pescoço contra a gravidade, sempre de costas. Mas nunca para trás.
Logo eu, que sempre achei essa comparação muito fraca e previsível, percebi que nada tem sido diferente dos pontos médios que desenham o polígono de frequência. Com frequência pouco frequente: altíssimos ou baixíssimos pontos máximos e mínimos, repectivamente ou não. Verde e preto. Como um eletrocardiograma oscilante, agudo, preciso, pulsando e vivo.
Vivendo. Foi assim que já nem me lembro de como eu era há cinco minutos, apenas recordo de que estou onde eu, um dia, quis estar. E como já não é novidade: não era exatamente assim que eu imaginava.
Tudo tem acontecido, tudo tem mudado. Mas nada está acontecendo, e nada está mudando. É a luta dos extremos, ter tudo e nada ao mesmo tempo. Ter logo dois pássaros nas mãos, e ainda ver outros dois voando.
Não quero descer. Não sou bem aquela que grita pra acelerarem o controle, mas não pensei em ir para o carrossel. Tenho raras lembranças dos cavalos dourados, que se restringem a fundos de fotos. Sem lembranças do que ficou, ou do que me contaram. Lembro das curvas, do dragão vermelho na frente do primeiro lugar e da cauda espetada logo ao fim.
Sou viciada em adrenalina, o tremer ansioso de uma perna sob a mesa é a espera pela próxima curva. E justamente ao contrário do que parece, não é um lugar na carruagem espelhada a resposta das perguntas. A calmaria e a música melancólica vão contra ao que corre nas minhas veias. O preenchimento das lacunas é o traçado de uma ferradura: dois extremos, ligados por um caminho curvado.
Mas eu não vou descer. Vou ficar bem aqui, à espera do looping que fará o mundo virar de ponta cabeça. Para que mesmo que eu veja o céu azul com nuvens brancas, eu retorne rapidamente ao eixo, e volte a ver o chão, mesmo que com a maior brutalidade possível. Já que dizem que o certo é o lado direito e ainda assim tudo continua virado, só me resta virar do avesso pra ver se assim alguma coisa passa a fazer sentido por aqui.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Ligação
Quando digo que a Gramática é meticulosamente programada iniciam as discussões de que é desnecessariamente complicada, cheia de regras desfeitas sem piedade nos acordos ortográficos, os verbos possuem inúmeras conjugações e poucas pessoas sabem, realmente, falar Português como se deveria.
E eu não consigo parar de ver metáforas, afinal foi tudo realmente programado. Os verbos que, gramaticalmente, não representam nem efetuam ações são exatamente aqueles que tem feito tudo parecer virado ao contrário. E só por isso já utilizei inúmeros transitores de estados. As dúvidas ultrapassam o uso de acentos em ditongos abertos, e nem mesmo o dicionário consegue achar significados coerentes para cada raio de luz de nome desconhecido. As análises sintáticas não encontram o complemento nominal e eu nem insisto que o sujeito seja, por enquanto, oculto. Nada impede de ser inexistente ou simples. Simples.
Quando eu imagino que os domingos chegaram ao fim, vejo que os feriados prolongados são ilusórios e a voz reflexiva insiste em ecoar que eu pratiquei e recebi, sozinha, a ação de enganar-me. Ou mesmo quando eu penso ter encontrado um sentido pelo qual quero e preciso seguir, encontro a bifurcação da sinonímia: duas coisas podem ter o mesmo, ou aproximado, significado.
Depois que o eufemismo chega ao fim, eu percebo os erros e os fracassos. Entendo que até o que antes foi neologismo, hoje pode fazer parte da classe de palavras. Mas pior ainda é aceitar aquilo que cai em desuso. Vossa mercê ficaria melhor ainda se tivesse um grupo gue gui pra acrescentar trema.
Não discordo de quem prefere a frieza e praticidade da Língua Inglesa a esse idoma articulado, gesticulado e pouco levado a sério. A Gramática não é a única desnecessariamente complicada, cheia de regras desfeitas sem piedade nos acordos ortográficos, verbos com inúmeras conjugações e poucas pessoas falantes, realmente, do Português como se deve.
Desde os verbos de ação, até aqueles de predicados nominais: nenhum até hoje me pareceu simples e com manual de instruções. Não há figura de linguagem capaz de impedir que eu me perca e me sinta passada para trás, por todas aquelas regras que eu mal sei quem dita. Não há tradutor de intenções, e principalmente quem saiba o que está fazendo.
Eu também não sei nada disso. Mas sou constantemente tomada pela consciência de que preciso rascunhar e apagar o quanto for preciso. E que uma folha sem palavras pode fazer a vez de uma única: vazio.
Estar, permanecer, ficar, ser.
