segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Oxigenação

Somente hoje a minha ficha caiu. Eu estou definitivamente de volta a São Paulo. Não me restam mais dúvidas de que não posso mais colocar os pés na areia quando achar conveniente. Tudo devido a esse clima paulistano infalivelmente paulistano. Com chuva fina, céu nublado carregado de poluição, e uma brisa geladinha.
Mal voltei para casa e já me faltava o que fazer. E nenhuma idéia me parece mais brilhante do que pegar meu mp4, calçar meus tênis e caminhar. Renovar as idéias. E não precisei andar por muito tempo para conseguir notar que o parque estava inteiramente infectado. De homens.
Com tantas outras coisas possíveis para se fazer (só não me peça para listá-las), parecia que todos os homens mal vestidos e mal-educados de São Caetano decidiram jogar basquete, futebol, ou simplesmente matar tempo vagando pelo mesmo ambiente que eu. Enquanto todas as meninas deviam estar em casa assistindo Mulheres Apaixonadas, eu parecia ser a única corajosa a se aventurar no parque tentando brigar com uma cólica incansável.
Com uma cara feia naturalmente feita, levantei uma única sobrancelha, coloquei Arctic Monkeys num volume razoavelmente alto e fui à luta! E minha nossa, como caminhar me faz bem. Em meio ao clima abafado e novamente paulistano, minha mente corria na velocidade da luz enquanto meus pés aumentavam o ritmo seguindo a música.
A cada grupo de homens pela qual eu passava, meu asco por essa espécie asquerosa só crescia. Eu devia ser realmente a única garota no parque, porque bastava eu pensar em caminhar por perto que todos olhavam e até gritavam alguma coisa que eu preferi abafar com a música frenética.
E a cada visão do inferno, eu realmente estava cada vez mais incrédula em como nós, mulheres, de uma inteligência superior, conseguimos nos misturar com esse tipo de raça.
É incrivelmente odiável a maneira como eles ousam olhar para nós, e argh.
Cheguei até a correr um trecho na tentativa de fazer com que meus pés acompanhassem meus pensamentos, mas nem isso adiantou. Caminhar oxigena meu cérebro de uma maneira inacreditável, e a todo momento eu penso em como poderia colocar cada palavra para formar textos críticos e amplamente cheios de conteúdo.
Entre verbetes, folhas secas, solos de guitarra, cólica, pensamentos odiosos, e muito calor, eu cansei. Cansei e continuei a caminhar, na dura subida até o 453. Enfim, cheguei. Uns trinta tons mais vermelha que o normal, ainda com cólica, precisando de cerca de trinta litros de água, e com a mente cheia de idéias, confiança, segurança e poder.
Eu cada vez tenho mais certeza de como nós, mulheres, somos poderosas. Enquanto corria, eu me lembrei de uma coluna que li numa revista, onde o autor mandava um recado para as leitoras dizendo exatamente isso: somos nós que escolhemos, mandamos, desmandamos e decidimos. Afinal, os homens param para nos ver passar, e estão em nossas mãos.
Não é à toa que somos nós que, na maioria das vezes, recebemos pedidos de namoro e casamento. Pois até eles próprios sabem que somos nós que precisamos decidir tudo.
Os homens que me desculpem, sinceramente. Mas correr me torna poderosa, e loucamente feminista e esse efeito é de longe prolongado. Até porque, tenho mais um mês de férias e pretendo caminhar muito pelo parque.

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