terça-feira, 19 de outubro de 2010

Since

E quando foi que nós nos perdemos? Não vejo um divisor de águas, um copo a mais ou uma tragada a menos que tenha mudado nossas verdades. Então o que é a verdade? Algo que muda ao longo dos dias não pode ser exato, racional e iniludível. A constante permutação de tudo aquilo que abraçamos e defendemos com unhas e dentes exclui o conceito de veracidade nos primeiros pré-requisitos. Então, diga-me, o que é a verdade?

Foi no momento em que eu abri uma janela que você fechou outras duas? Ou foi quando eu tapei o sol com a cortina que você se protegeu com óculos de sol?
Quando tudo que fez parte parte do meu passado caiu em ruínas, que mal servem como boas lembranças, acreditei na ilusão de que você permaneceria aqui. E de repente eu ouço você me pedir "por favor", como se sete anos se reduzissem a nada.
Vejo um muro divisor. Grande em todos os sentidos (assumo todo o rancor comparativo), mas ainda assim pequeno. Pequeno de positividade, pequeno de atitudes e situações concretas. Transbordando de sonhos utópicos, alegóricos. Sonhar tem sido pouco.

Ainda que eu me veja coberta pelo sagrado manto da razão, não esqueço o outro lado da moeda. A coroa me incentiva enquanto a cara me mantém com os pés no chão. Basta virar a moeda para que eu seja exibicionista, vulnerável, e mais uma. Enquanto você é quem tem o real valor, quem a mãe passa a mão na cabeça enquanto consola, que o mundo é sim ruim, mas quem é realmente bom tem seu lugar guardado. Você tem todo o talento do mundo, cabeça forte, personalidade e apoio familiar. A idiota aqui, sou eu. Eu quem faço tudo errado.

Dia-a-dia me consumo em favores da qual nunca fui obrigada ou recompensada. Fico articulando palavras e tentando me colocar numa gaveta que não caibo mais. Até uma criança já teria resolvido seu problema dividindo suas canetas coloridas novas pra cativar amizades. E eu continuo a passar, dia após dia, pensando quando é que isso vai acabar.
Mais quatro, cinco, seis anos é mais do minha capacidade apaziguadora pode suportar. Até lá, tudo o que permaneceu entalado, como biscoito água e sal, terá me transformado no que eu sei que não sou, e que não preciso ser relembrada.

Que assim seja. Assumo a imbestilidade ou qualquer desgraça que me for classificada, com um dedo indicador que só desqualifica. Por alguém que separa por defeitos, e que o melhor é menos pior.
Acima de qualquer discurso furado de quem acha que venceu mais uma batalha: cada passo que me afastou de você, e que aproximou a muralha das lamentações, me fez bem e satisfeita. Não me arrependo de cada passo novo, e de cada pedaço que me coloca onde eu quis. História de vida.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Adrenalina

(Da série que não deveria ter data)
Logo eu, que por tanto tempo evitei as filas de quatro horas por alegar queda de pressão, fui designada aos trilhos de madeira. Que por si só, sacolejam como batedeiras de bolo. Ainda sem um cinto de segurança que prende pelo peito, apenas uma barra fina na cintura. E de costas, pressionando o pescoço contra a gravidade, sempre de costas. Mas nunca para trás.
Logo eu, que sempre achei essa comparação muito fraca e previsível, percebi que nada tem sido diferente dos pontos médios que desenham o polígono de frequência. Com frequência pouco frequente: altíssimos ou baixíssimos pontos máximos e mínimos, repectivamente ou não. Verde e preto. Como um eletrocardiograma oscilante, agudo, preciso, pulsando e vivo.

Vivendo. Foi assim que já nem me lembro de como eu era há cinco minutos, apenas recordo de que estou onde eu, um dia, quis estar. E como já não é novidade: não era exatamente assim que eu imaginava.
Tudo tem acontecido, tudo tem mudado. Mas nada está acontecendo, e nada está mudando. É a luta dos extremos, ter tudo e nada ao mesmo tempo. Ter logo dois pássaros nas mãos, e ainda ver outros dois voando.

Não quero descer. Não sou bem aquela que grita pra acelerarem o controle, mas não pensei em ir para o carrossel. Tenho raras lembranças dos cavalos dourados, que se restringem a fundos de fotos. Sem lembranças do que ficou, ou do que me contaram. Lembro das curvas, do dragão vermelho na frente do primeiro lugar e da cauda espetada logo ao fim. 


Sou viciada em adrenalina, o tremer ansioso de uma perna sob a mesa é a espera pela próxima curva. E justamente ao contrário do que parece, não é um lugar na carruagem espelhada a resposta das perguntas. A calmaria e a música melancólica vão contra ao que corre nas minhas veias. O preenchimento das lacunas é o traçado de uma ferradura: dois extremos, ligados por um caminho curvado.


E logo eu, que pensei não  precisar de mais nada, nunca precisei tanto. Nunca achei que poderia ser tão necessário me livrar das lembranças dominicais. Nunca pensei que fosse assumir ser de pele e ossos e muito mortal, ao ponto de ser mal completada.

Mas eu não vou descer. Vou ficar bem aqui, à espera do looping que fará o mundo virar de ponta cabeça. Para que mesmo que eu veja o céu azul com nuvens brancas, eu retorne rapidamente ao eixo, e volte a ver o chão, mesmo que com a maior brutalidade possível. Já que dizem que o certo é o lado direito e ainda assim tudo continua virado, só me resta virar do avesso pra ver se assim alguma coisa passa a fazer sentido por aqui.


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ligação

Quando digo que a Gramática é meticulosamente programada iniciam as discussões de que é desnecessariamente complicada, cheia de regras desfeitas sem piedade nos acordos ortográficos, os verbos possuem inúmeras conjugações e poucas pessoas sabem, realmente, falar Português como se deveria.
E eu não consigo parar de ver metáforas, afinal foi tudo realmente programado. Os verbos que, gramaticalmente, não representam nem efetuam ações são exatamente aqueles que tem feito tudo parecer virado ao contrário. E só por isso já utilizei inúmeros transitores de estados. As dúvidas ultrapassam o uso de acentos em ditongos abertos, e nem mesmo o dicionário consegue achar significados coerentes para cada raio de luz de nome desconhecido. As análises sintáticas não encontram o complemento nominal e eu nem insisto que o sujeito seja, por enquanto, oculto. Nada impede de ser inexistente ou simples. Simples.
Quando eu imagino que os domingos chegaram ao fim, vejo que os feriados prolongados são ilusórios e a voz reflexiva insiste em ecoar que eu pratiquei e recebi, sozinha, a ação de enganar-me. Ou mesmo quando eu penso ter encontrado um sentido pelo qual quero e preciso seguir, encontro a bifurcação da sinonímia: duas coisas podem ter o mesmo, ou aproximado, significado.
Depois que o eufemismo chega ao fim, eu percebo os erros e os fracassos. Entendo que até o que antes foi neologismo, hoje pode fazer parte da classe de palavras. Mas pior ainda é aceitar aquilo que cai em desuso. Vossa mercê ficaria melhor ainda se tivesse um grupo gue gui pra acrescentar trema.

Não discordo de quem prefere a frieza e praticidade da Língua Inglesa a esse idoma articulado, gesticulado e pouco levado a sério. A Gramática não é a única desnecessariamente complicada, cheia de regras desfeitas sem piedade nos acordos ortográficos, verbos com inúmeras conjugações e poucas pessoas falantes, realmente, do Português como se deve.
Desde os verbos de ação, até aqueles de predicados nominais: nenhum até hoje me pareceu simples e com manual de instruções. Não há figura de linguagem capaz de impedir que eu me perca e me sinta passada para trás, por todas aquelas regras que eu mal sei quem dita. Não há tradutor de intenções, e principalmente quem saiba o que está fazendo.
Eu também não sei nada disso. Mas sou constantemente tomada pela consciência de que preciso rascunhar e apagar o quanto for preciso. E que uma folha sem palavras pode fazer a vez de uma única: vazio.


Estar, permanecer, ficar, ser.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

domingo, 25 de julho de 2010

Das coisas que me fazem perder metáforas.

Incondicional e independente. Pensei que essas palavras fossem permanentemente ligadas à felicidade de quem se gosta. Quem me ensinou isso - e deve ter sido a vida -, me enganou feio.
Entendo que encontramos uma bifurcação e cada um de nós optou pelo o que o outro já viveu. Entendo, não julgo, não questiono, apenas entendo.
Depois de algum transtorno e perseguição, aprendi que é fase e naturalmente apoiei. Já guardei tudo o que houve de bom, esperando o momento de abrir caixa por caixa, gaveta por gaveta até encontrar aquelas com feixes coloridos que havia perdido.Mas nada disso significa que eu desejo que encontrem as caixas por mim. O que cabe a mim, cabe a mim e a mais ninguém.
Não há problemas em assumir egoísmo e qualquer outro erro, só não posso trair o forte sentimento de que pra ser, tem que ser meu. Essa convicção e inflexibilidade estão beirando a aceitação. E eu irei aceitar, sem maiores escândalos, demonstrações e palavras. Mas não irei concordar, felicitar, torcer e comemorar. Ainda quererei como quero; Ainda sonharei como sonho; Ainda planejarei como planejo. Tudo para que, no exato momento em que decidir ser e estar, seja meu, esteja comigo e com mais ninguém.
É o poder da madrugada, agravamento de simples pensamento, e exposição de uma única certeza: tempo, tempo de novo.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sorriso

Pessoas em fase adulta costumam dizer que representam alguns personagens diariamente, para cumprir suas funções na sociedade e poupar (ou estabilizar) as dores de cabeça na vida. Mal sabem elas que não aprenderam a atuar na marra, já nasceram sabendo.
Desde criança uma força interior, aguçada por outra exterior, mostra que sem forte dramatização algumas coisas não são alcançadas. Basta reparar em uma criança numa loja de brinquedos, no setor de doces do mercado, no dentista ou no parquinho. Sem o choro desesperado e exagerado o brinquedo não seria comprado, não haveria doce antes do jantar, não receberia mimos e promessas por não morder o dentista, e não teria agrado algum depois da imperceptível ralada no joelho. A arte de chorar pode causar alguns estragos, enganar algumas pessoas e chantagear emocionalmente. Mas a ferida não é maior daquele que finge sorrir.
Quando quero, e principalmente quando não quero, faço jus ao meu nome: atuo como ninguém. Sorrio pra gente grossa, após uma ofensa, pra quem erra meu troco ou me atende mal, e ainda mais pra quem me chateia. Poucas coisas fazem meu sorriso falhar e ser pouco convincente. Mas quando fazem, não há escola de arte ou retirada de duas letras no meu nome que sejam plenamente potentes pra me fazer fingir.
Agora, meus dentes estão presos numa mordida tensa, engolindo desabafos e puras verdades. Estão tentando unir forças para morder bravamente e me distrair de uma dor maior, que tá aqui dentro. É um sentimento novo, mal sei se comparo com perda ou tristeza. Só sei que é muito mais desesperado do que a ideia de não ter em quem pensar. Tem sido pior que carência, e poderá ser maior que qualquer desilusão amorosa. Não estou pronta - nem nunca estarei!- pra perder um pedaço enorme de mim. Que apesar de não ser do mesmo sangue, segue a sina para que seja tão forte como se fosse.
Três sempre foi meu número da sorte, e em algum lugar deve estar escrito que assim sempre será. A genética uniu dois, e o terceiro veio pra completar tudo o que faltava: o bom humor incondicional, as ideias incabíveis, a ingenuidade e falta de pés no chão.
A falta de perfeição sempre me trouxe alívio por saber onde estar. Mas não deveria ser tão real ao ponto de doer. De pouco em pouco, sem perceber, alguns buracos ficaram pelo caminho e não devem -não é possível que possam- serem preenchidos por lembranças e nada mais.
Todas as avós devem dizer por aí, que nada acontece por acaso e que alguns males vêm para o bem. De males, estou satiafeita. Quero os bens, os acertos e a prova de que o acaso foi generoso em fortalecer laços inquebráveis. Já estou pronta para no meu melhor estilo, engolir algumas pedradas, me humilhar e esforçar sem reconhecimento só para poupar, que a noite meu ser possa doer mais que meus braços.
Eu preciso, e você também. Apesar de tudo que tem se mostrado errado, ou mal sincronizado. O pior erro seria vivermos distantes. Três é meu número, e você é o terceiro sorriso.

sábado, 29 de maio de 2010

Maio

Eu me enganei. Pensei que somente a ausência refletisse na falta. Mas o excesso me trouxe um silêncio maior, e mais doloroso. Eu me enganei. Pensei que não houvesse sábado que não fosse cura, amigos que não servissem de consolo.
Com engano atrás de engano eu fui me esquecendo tanto de que você precisa viver seus outubros de sol, quanto que também pode precisar de julhos de frio. Há um ano eu revelei qual era o segredo, e somente agora você soube usá-lo, e talvez nem saiba disso. O desdenho não me é problema, congelar, duplamente, tudo o que eu poderia querer fica fácil quando não existem desequilíbrios.
O desequilíbrio me parece mais forte e verdadeiro que borboletas amarelas de Babilônia. E talvez seja o máximo que eu possa te dar. Mas se quiseres ainda tem meu calor.
O grande problema da realidade é crer tanto na crueldade e esquecer-se de fantasiá-la; É ver em tudo drama, de braços cruzados por um dia quente; O problema de querer que não existam mais domingos é perceber que as segundas-feiras são melhores que sábados.
Posso estar de olhos vendados no sol, mas isso significa que eles estão atentos no escuro: feliz é aquele ignorante que não percebe (e nem quer) nada.
Em tanta cegueira, os goles amargos que tomo só me fazem engasgar, e o descontentamento me sufoca em mais e mais silêncio. A minha falta de agradecimento transforma-se em repugnância por eu não ser corajosa o suficiente para sorrir um pouco. Eu traíria o que sou se pudesse fazer da água vinho.
Num antro pessimista e fundo já posso pensar nos outros sofrimentos que virão, nas flores feias que escolherão.
Não posso ser o que quero. Só consigo ser o que sou nessa fase ruim, nesse Maio ruim e argh.
Time cure hearts.