sábado, 26 de novembro de 2011

Vinte e seis

Eu mal me aguentava de ansiedade nas coxias. Andava descalça pra lá e pra cá naquele chão frio e empoeirado, não conseguia ficar parada um minuto sequer naquele dia que estava sendo o segundo do conjunto dos três melhores.
A manhã começara me distraindo com algo entre física e geografia, num ar condicionado gelado que ardia os olhos de quem havia desacostumado a acordar tão cedo. O calor da hora do almoço triplicou dentro do carro parado no minhocão. O trânsito ia me atrasar e eu não podia. Salva por alguns minutos, cheguei a tempo de um grande abraço e palavras boas. Mergulhos na ressonância e eu já dava braçadas de encantamento. Quis sair rabiscando as paredes da casa toda mas, de novo, eu precisava correr.
De frente pro espelho do banheiro-camarim eu arriscava os passos que tinha de cor mesmo sabendo que algum faltaria no momento certo. Uma sombra preta atrapalhada, barulho de todos instrumentos sendo tocados ao mesmo tempo e pedidos inúteis de silêncio, eu não era a única ansiosa.
Pessoas mais atrasadas do que eu, vozes trêmulas e velas que não paravam acesas. Planos de uma sexta a noite que mal começava e passos animados no canto do palco prontos pro acorde combinado. Entrei, dancei, errei e não pude enxergar nada além de um palmo à frente e luz me ofuscando a vista. Estaremos juntos no ano que vem, abraços e o choro que não saiu.
Pela última vez no dia eu estava atrasada. Ainda deveria comer a pizza o mais rápido possível e mostrar que eu podia. Foi quando me lembrei que mal tinha pensado em tudo o que deveria ser feito, nem mesmo numa roupa poderosa ou um drink desencanado pra segurar na mão desatenta. Mas a imagem, no meio da pista, a minha mente estava decorando com esmero.
A pizza tardou a chegar e eu me vi desviando o plano perfeito. Poucos caracteres num pedido de desculpas e me vi esperando algo maior - que, na verdade, resume-se numa desimportância quase extrema. Você cogitou o vestido amarelo e acabou no casaco azul bebê. Eu fui de couro.
Conhecia aquela rua, mas não imaginava qual era quando li o endereço. A casa transbordava de gente, o portão estava aberto mas eu liguei antes de entrar. A sala de estar não estava menos abarrotada. O sofá arrastado, o tapete amarrotado e a mesa vazia. Todos os objetos deviam estar trancados dentro dos armários para evitar maiores problemas. Mas a medida de prejuízo foi pouca.
Ganhei um copo de plástico e reconheci os convidados na cozinha em meio a outros que já passaram do ponto. Dali eu podia ver, pela janela, o quintal, com tantos outros rostos que eu mal começara a decorar os nomes. Um rodo limpando o chão, e você batendo a cabeça na geladeira. Nos sentamos no aparador da sala de jantar, de frente para a mesa com sacos de salgadinho rasgados. Algumas palavras insistentes, convidados de uma festa de debutante e em dois flashes havia alguém em cima da mesa, gritando que a festa havia acabado. Gritou, apenas. A festa custou terminar.
Em pé na sala de estar conversávamos floridamente sobre coisas floridas. Algo entre os porta-retratos ao lado da televisão e os autênticos documentos de identidade que justificavam os copos nas nossas mãos. Apenas cinco sirenes de polícia depois alguém gritou que apenas os convidados deveriam permanecer na casa. Ou seja, a rua automaticamente sofreu com a superlotação de pessoas evitáveis, inevitáveis, substituíveis e insuportáveis.
Subimos a rua, nós três, para chegar ao táxi. Pessoas, que de tão conhecidas se tornaram todas iguais, fizeram piadas que voltamos para ouvir. Roupas de mulher, conversas virtuais, feriado, quinze dias atrás. Juntei as informações e entrei no táxi, aliás, um dos poucos legados sobreviventes daquela época. Tão logo cheguei em casa já me esqueci de tudo.
Mal lembro o que comentamos depois de tudo o que passou, aliás, se comentamos alguma coisa depois. Exatamente por não imaginar o que viria depois minha memória exclui os maiores detalhes. O caos de um dia que haveria de ser completamente diferente do que foi, refletido no que não esperávamos que fosse hoje. E agora você segura naquela mão e eu, mal me aguentando de ansiedade na coxia, espero pela próxima cena.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Maracujá

Foi numa dessas mordidas geladas que doem os dentes de baixo que pensei: poucas coisas na vida me lambuzam como um picolé natural de maracujá. Azedo o suficiente pra não melar os dentes de açúcar e doce o bastante pra não fazer careta feia. 
Descobri que gosto da vida-maracujá. Aquela que me dá sede pra beber uns dois copos de água trincando de tão gelada e deixa ferver qualquer temperatura ambiente. Sobrando apenas o palito melecado que arrepia só de imaginá-lo raspando, de novo, nos dentes de baixo. São os amores-maracujá que não precisam de corante algum. São amarelíssimos só por existirem. E me mostram cada uma das sementes que estalam nas mordidas. Cleck. 
Poucas coisas me são tanto na vida quanto um picolé de maracujá. Não tem meio termo e quem gosta adora. Não adianta colocar açúcar e dá pra percebê-lo de longe. Eu no palito.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Calendário

Parece um poster, quase um quadro ou um mural de avisos. É musical mas não canta. Aliás, só é musical para quem lhe é familiar. Parece tudo isso mas ele é muito mais simples: trata-se de um calendário.
Separando cada dia com um quadradinho me faz lembrar minha noção infantil do passar dos dias. Quando comecei a entender que dormir virava o dia, enxergava uma linha contínua cheia de quadrados, como uma amarelinha, e me via pulando cada um deles toda vez que alguém dizia "daqui três dias..." Minha imagem mental talvez não tenha mudado muito, e muito menos agora que eu realmente pulo os quadrados. Pulo e os desenho.
Quando paro pra pensar qual roupa vou usar em tal festa penso junto qual será o desenho para aquele dia. E eu nunca adianto as informações, o espaço só é preenchido após serem completadas as vinte e quatro horas correspondentes. Pego o porta-canetas, sento em frente ao calendário e penso o que quero deixar marcado daquele dia, ou como toda teimosia na minha vida às vezes escrevo o que devo e não o que quero. 


Registro as músicas tocadas repetidamente, viciadas no meu ipod e que são o que estou ou o que sou. Depois, tomo o cuidado em não repetir cores e tento desenhar. Tento, pois quando erro colo adesivos feios em cima que de nada adiantam por gritarem: "alguém errou por aqui".
As franjas beatlenianas e os trechos escolhem, sozinhos, dias para preencherem de vida, ou de suspiros, a cada mês. Me vejo imaginando quais serão os desenhos do mês começando e faço balanceamentos dos que estão pra acabar.
Apenas sento e penso no meu dia, no que pensei e ninguém sabe, no que falei e todo mundo ouviu. É repetitivo, decodificado e com mais letras que desenhos. É o meu lovesick diary, como não poderia ser diferente vindo de mim. 
O ano está acabando. Me restam pouco menos de sessenta quadrados. Preciso de um novo. Urgente.



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Meia-calça

Meu secador de cabelos está beirando o curto circuito e não desliga mais, precisando ser puxado pelo fio, mesmo que de qualquer jeito, para desconectar da tomada. Os botões de regulagem se movem sem sentido: a velocidade permanece no máximo e a temperatura é a mais quente possível. E eu ainda o uso, e usarei até quando o cheiro de queimado tornar-se o próprio queimado em si.
Com as orelhas pegando fogo, eu secava os cabelos enquanto sentia a corrente de vento passando pelos pés. A fresta da porta aberta que a conecta com a janela quase fechada. Eu ia, nem que fosse sozinha e pelas próprias pernas. Era maio, e eu merecia sair de casa por simplesmente sair de casa e fazer minha vontade. 
No caminho tratei de comer os biscoitos integrais, já que o café da manhã insistiu em ficar gelado na mesa da cozinha, não descia por nada. Quando ainda havia dedicação, abri um livro e li coisas sobre civilização e leis de trânsito. Uma, duas e a estação chegou. Lugar desconhecido e eu mal havia pensado por onde começar. Um número nunca discado e eu mal havia pensado por onde começar.
Tentei ser ruiva, mas tive que ser o que me sobrou pra ser. Em pé, sem graça. Retrocedendo no calendário e as palavras saindo naturais da minha boca, como quem não entende porque demorou tanto tempo para as coincidências acontecerem. Exclamações surpreendentes e minha bolsa apoiada no chão, em meio a tantas pessoas mais desconhecidas ainda. Num piscar de olhos o rádio começou a tocar e eu era a única que não conhecia a melodia inteira. A única.
Two steps e o mundo girou devagar. Aquele era um mundo novo e eu gostava muito disso. Minha falta de habilidade em rir quando fico constrangida e duas olhadas no espelho: "não precisa".
De volta à quinta série, no canto atrás da lavanderia. Sem acreditar. Uma divagação tão longa pra quem sempre conversou. Deitados na grama, sem olhar o céu, de frente pra um palco de um festival de rock. O chaveiro e a meia-calça. Abri a porta e desci. Naquele momento eu não esperava nada, não sabia se devia esperar, e nem mesmo sabia o que esperar. Mas a certeza era factual: eram novos tempos.

domingo, 2 de outubro de 2011

All happening

Prólogo

O contar da história é lento, mas o ouvir é apressado. O resumo da obra termina por ser subestimador e coloca o diferencial como fator comum. Entretanto, a história é longa, agregadora, compartilhada. 

São as músicas preferidas, o jeito de falar e o café da manhã. As manias da adolescência e os ídolos do rock que levaram ao jeito de se vestir. Os lugares que levam a você, a mania de arrumação e as caixas de remédio. 

Do despertar ao deitar. O primeiro dia, a nota baixa, o atraso no emprego e um cd novo. A fantasia de astronauta que somente a mãe acha bonito te ver usando. É o meu número, afinal. 

Eu-lírico
Eu já quis correr contra o vento ou a favor da maré. Pensei que nada fosse passar e tudo passou. Achei que não podia levar nada disso a sério, esqueci de ter expectativas e de repente ouviu-se o sussurro ao pé do ouvido: It's real, baby. 
O começo tão improvávell, o futuro distante que se aproximou de um jeito tão errado que acabou por ser o jeito certo. Quando eu achava que fazer minhas vontades e colocar os sentimentos à prova era me ser pelo bem e pelo mal para me ser, por ser, descobri que me fui esse tempo todo sem perceber. 
Cada palavra não dita, cada teoria guardada na gaveta deixou o tempo agir naturalmente. E trouxe tudo que deveria trazer na hora certa. Nada do que é vivido hoje se baseia em certezas concretas nem nunca se baseará. Mas a questão definitiva é prender-se no que foi construído e não no que poderá vir. 
Nunca me fui tanto do jeito que eu quis ser. Encontro duplo, simultâneo e sincronizado. Dos.

A obra
Não se trata de injeções de alegria, doses homeopáticas ou doses cavalares de seis em seis horas. É um constante e permanente estado de felicidade. Sincera e clandestina. 
Tão clandestina que transborda para fora do recipiente. Pelo simples fato de ouvir as botas baterem forte no chão ao caminhar. Tão clandestina que corre riscos por ser quase irregular. Chutei todas as regras para longe e vomitei para fora as cores e as texturas que furtei esse tempo todo. 
Foi quando arrumei os meus cabelos frente ao espelho e vi que não se tratava de um espelho. Era simplesmente a minha imagem refletida numa pessoa tão semelhante a mim que eu precisava de placas penduradas no bolso da camisa identificando, pelo sobrenome, quem era quem. 
O modificar, também clandestino, do outro acaba por voltar-se para dentro. O que eu quero mudar não é justamente o que me falta? Mas, quando foi que você se tornou o que eu sou? Ou melhor, quando mesmo eu me tornei quem você é?
Aprendi nesse tempo o charme por trás de uma risada no lugar de uma resposta longa, explicativa e massante. É tarde demais para procurar as respostas. It's all happening and I don't wanna change fucking anything. 

Epílogo
E
nquanto houver fôlego. Piadas boas e os acordes repetidamente viciados. Na verdade, nós não somos o mesmo. Apenas nos tornamos o mesmo quando. Quando estamos. Juntos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Last Year



Eu estava descendo a rua apressada por viver aquela noite. De mãos dadas com quem me segurava forte, mas sem pretenção própria. O plano da noite era voltado pro suéter quieto e inseguro.
Numa daquelas esquinas cheias, e igual como todas as outras, um tropeço me colocou em frente com um erro de quinze dias atrás. E quem mente paga, paga caro. E quem ouve a mentira fica com o troco. Duas palavras gaguejadas, uma simpatia de última hora e eu já nem sabia mais no que pensar. Retomei aquelas ideias de destino e de que haveria reencontro se ele fosse necessário e justo. E houve. Completamente despreparado e indevido.
Por dígitos a menos, quatro se tornaram três na mesa do bar. A reserva pra trinta pessoas foi em vão e logo a noite parecia outra. Tinha que ser outra. 
Uma fila enorme se estendia à esquerda da casa com sacada. Alguém disse que aquele seria o dia, e sobrou quem concordasse. Casa cheia, contagem regressiva. O brinde no bar e já não havia amanhã. Como um grito de guerra que precede a vida a ser vivida. E foi. 
Música boa e gente demais pra assunto bom de menos. Encostar elimina e implorar só piora. Cinema, bom gosto e nada que mude minha vida. Até aparecer um nome estranho, que não mudou nada mas chegou perto disso. Um assunto prepotente, interessante mas insuficiente. Até que me deram as costas, numa timidez mal educada, mais prepotente, mais interessante e quase suficiente. 
Uma conversa tão previsível, tão fantasiada. E a música boa que nos levou pra pista. Open up my eager eyes. Cinquenta ideias num segundo. O assunto não podia acabar, e eu precisava voltar. O espaço era pequeno e ainda assim todos haviam sumido. De longe eu via quem eu queria ver, já duvidando encontrar reciprocidade. Outros cinquenta pensamentos pra ter, e logo o único mal idealizado veio à mente. Ponto final, erro cometido.
Eu continuava precisando encontrar uma companhia e teve de ser a voz rouca prestes a acabar. Enquanto o olhar me buscava de cima. E eu pensava mil vezes por que é que eu era tão pouco esperta. Não é por ser você, aquele ou outro qualquer. É o não poder ter, o desafio e a renúncia. As palavras acabaram, os argumentos e a voz. Alguém tinha de vir resolver aquilo tudo. E veio. 
A reprovação e a aprovação de mãos dadas, numa festa prestes a acabar, sorrindo sem pensar que aquilo ainda era totalmente errado. Torcicolo, o clichê e a mesma conversa de quinze dias atrás. E eu devia, de novo acreditar naquilo. A luz negra tira toda e qualquer racionalidade em perceber as mentiras e falsas intenções. Ele não ia ligar nem que quisesse, odiava aquilo.
Subi a rua pensando que havia vivido em dobro: pelo errado e pelo quase certo. Dessa vez sem crer na carochinha, por ter, antes de mais nada, quebrado o sapatinho de cristal e ter entrado direto na abóbora. 

Era pura teoria. Mas a prática foi quase infalível. Não ligou. Nunca disse que ligaria. Mas escreveu. E não parou mais.
Outras vozes me ligaram, muitas outras palavras me foram escritas e eu pronunciei tantos outros verbos aleatórios. Inúmeras tentativas de viver metade do que seria possível. 

Last year. To happen in this year. To live this year. To be now. To love today. Next year.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Time cures heart

(Da série que não deveria ter data e nunca chegará ao fim)
Já era a segunda vez na semana que ela entrava na locadora de vídeos para buscar o mesmo filme. Até olhou para as outras prateleiras, mas em pouco tempo decidiu que queria ver aquele, novamente. A capa era um colorido desbotado mas não trazia nenhum desenho que chamasse a atenção, não exatamente como os hollywoodianos.
O balconista começou a comentar sobre os lançamentos que tinham acabado de chegar e ainda tinham unidades na prateleira. Apontou para os cartazes às suas costas, com aquelas luzes circulando constantemente. Carros em alta velocidade, apocalipses, histórias de amor em plena noite de natal e uma boa dose de filmes com sangue e espíritos. Mas ele a conhecia bem. Mesmo quando não era seu turno ele via no sistema que aquele filme estava locado, por ela, claro. E nunca conseguiu entender exatamente porquê a repetição.
Ele se lembra de algumas vezes em que ela optou pelo lançamento comentado do mês, ou por um clássico consagrado e cheio de traças. Porém consegue contar com poucas dezenas quantas vezes isso realmente aconteceu. "Esse, de novo?" Ele já nem tinha vergonha mais de questioná-la.
"A trilha sonora é... Tão boa!". Ela respondeu sem se importar enquanto levantava os ombros como quem não vê outra resposta mais óbvia para dar. Ela já nem se preocupava em falar o código de matrícula ou mostrar a carteirinha de sócia - que na verdade nem sabia aonde tinha ido parar. Enquanto ele registrava o filme ela esperava ansiosa, batendo o pé esquerdo no chão, no mesmo ritmo do dvd que estava passando na loja. Não era falta de paciência, era o costume de quem já nem percebe os movimentos mecânicos de abrir a caixa, passar o código de barras, imprimir o comprovante, aliás, por que ele sempre circulava a data de entrega?
Ela já nem pedia mais a sacola plástica, quando colocavam o filme dentro ela tratava de tirar e levá-lo na mão. A caixinha sempre ia no banco do passageiro, ocupando com propriedade o lugar que deveria ser de alguém. O papel do encarte, meio amassado nas bordas a irritava em alguns dias. A vontade era de arrancá-lo do plástico e arremessar pela janela, talvez com a caixa junto. Deixando somente o dvd meio gasto, apoiado no veludo do banco do carro.
Algum dia o aparelho vai reproduzir o filme antes mesmo do dvd ser colocado. Até os objetos inanimados acabam por viciar nos atos repetitivos de quem insiste em compreender. Sentada com as pernas cruzadas sobre o sofá ela folheava o caderno bege, surrado, com uns rabiscos que ela mesma titubeava em entender.
Os diálogos eram os mesmos, o personagem continuava naquela jaqueta surrada. A trilha sonora era simplesmente incrível, e não havia nada de errado. Exceto pelo fim. Sempre aquele trem correndo pelos trilhos, a menina desesperada e os passageiros sem entender como alguém poderia ter chegado àquele ponto. Deixá-la sentar não poderia mudar muita coisa, mas quem sabe amenizaria o momento de dor. Ilusão.
E quando o filme começava a mostrar os créditos finais ela voltava. Revia as partes principais, em câmera lenta. Como quem tenta encontrar uma palavra sussurrada, ou um vulto ao fundo que pudesse ser subliminar. Mas o que ela entendia uma vez, nunca se repetia. A palavra que aparecia escrita nas nuvens, simplesmente sumia quando ela acionava o repeat. Nada se repetia, exceto o fim.
Sim. Ela também teve a ilustre ideia de copiar o dvd, comprá-lo ou não devolvê-lo nunca mais, pouco sentido havia nas repetidas locações que além do gasto exigia o empenho de ir até a locadora e procurá-lo nas prateleiras. Aliás, deveria haver uma pequena conspiração para que a cada mês ele mudasse de lugar. Mas ela sempre o encontrava, sem precisar perguntar aos funcionários. Talvez fosse um tipo de magnetismo, algo que a levava ao lugar exato, mesmo se vendasse os olhos.
Sim. Ela já se perguntou o porquê de alugar o mesmo filme tantas vezes ao ponto de encontrar furos, erros de continuidade e (quase) enjoar dos personagens. Mas tudo fazia mais sentindo enquanto cada incógnita aumentava. Algumas passagens eram tão simples que poderiam conter novas histórias dentro delas. Contradição demais pra filme de menos. Nem quatro horas de gravação resolveriam os problemas e clareariam as ideias.
Não era o melhor filme do mundo, o mais bem feito. Estava cheio de defeitos, e era um pouco fraco. Mas era o seu filme. Ela só precisava entender os diálogos, rever a fotografia, ouvir a trilha sonora, retroceder nos momentos decisivos, e escolher parar quando tivesse vontade. E fazer tudo novamente. Voltar ao mesmo lugar para devolvê-lo e retornar quando bem entendesse para começar de novo. E mais uma vez.
Tudo para acordar no dia seguinte sendo a mesma pessoa. E de novo, mais uma vez.