domingo, 27 de novembro de 2011

Szívem

Não sei como é possível cair, cair, cair e ainda assim observar as imagens vagarosamente nesse poço marrom, cheio de gavetas. Algo como Alice no País das Maravilhas que sente tédio numa queda que, curiosamente, custou a terminar. 

Depois que passa a gente realmente pergunta se custou tanto assim. E vendo por esse aspecto, eu poderia estar numa grande subida, bastam cento e oitenta graus para qualquer um dos lados. Descida ou subida, enfim, cada pedaço desse percurso foi arrastado e cravado no papel, como um giz de cera forçado contra a superfície, soltando lascas e despedaçando a cada letra a mais escrita. 

Três dias. Três fases. Comecei nessa história toda muito ansiosa e pouco orientada, caindo cada vez mais na contradição de não querer encarar o dia e ao mesmo tempo desejar passar por ele três vezes. Quando lembrei de não criar expectativas eu já havia mergulhado de cabeça, depositando a responsabilidade de um dia feliz na proporção direta com a proximidade de dois corpos. 
Envelhecer, digo, passar os anos é algo fácil, escorregadio e perigoso. Quando menos se espera lá está de novo a montanha russa te chacoalhando para todos os lados, transtornando - e não menos transformando - o que termina com um simples soprar de velas. 
Maldita falsa expressão de quem pouco espera e, na verdade, dedica cada centímetro da existência para um momento de reconhecimento e realização. Dois toques no celular, um mimo como presente ou um drink colorido. Quem sabe algumas três palavras bonitas e "não, que isso, sei onde estou pisando". 
Colapso da não-programação mal programada. Quem não envia convites obviamente fica sem convidados. Mas, eu fui. Se eu não fizer por mim, quem é que vai fazer? 
Somente as selecionadas do carro, as que nunca escolhi no cd, que simplesmente tocavam antes da locutora falar sobre o dólar no dia clareando aos poucos. As músicas que sem querer falam muito mais do que já fomos capazes. E que talvez só falem por mim. A ansiedade desmerecida e a confiança rara, a traição de acreditar estar tudo certo justamente quando blocos de gelo descem rolando pelas escadas. 
O desespero do amanhã, as tardes vazias e as noites desencontradas. Perdi o caminho de casa e sabia que precisava voltar. Quis guardar tudo num pote de vidro, ao lado do doce de leite mas tudo o que pude fazer foi decorar os gestos, o carregar da mochila, o timbre e o tchau. Era preciso começar, recomeçar, ou começar. Mas eu não queria, se eu não quero quem é que vai fazer por mim? Dia de nascer é também dia de inexistir. 

Acordei com a sensação de roupa fresca com amaciante. O despertar tranquilo de um coração apertado. A tristeza também é bonita, justamente pelo acalmar narcotizante. Esqueci de esperar alguma coisa. 
Quando pequena, esse momento sempre entrava na fila dos melhores do ano. Se eu tivesse conseguido usar um diário durante um ano inteiro, essa página certamente seria coberta de corações. Bastava enrolar os docinhos, tomar banho às quatro da tarde e esperar, sentada, usando algum vestido bonito. E tudo infelizmente terminava com o desembrulhar dos presentes, que ficavam semanas espalhados pelo quarto. 
Além dos doces, restava-me a refeição completa. A simples lembrança do ritual que sempre me fez tão feliz foi amenizadora. Afinal, não estava somente eu naquele mundo. 
Na realidade, é injusto deixar nas mãos, de quem nem sabe ser responsável, o que se espera pra um dia ou para uma vida. Vida. Justamente esse suspiro de existência pode ser o suficiente desde que seja grato. Gratidão, também reconfortante com um punhadinho de boas amizades. 
Sentir cada pedaço desse fervilhão me fez esquecer que nessa queda (ou subida?) uma gaveta esperava aberta para ser preenchida. Sem ter preparado qualquer tipo de discurso ou objetos coloridos para trancar dentro da gaveta e abrir no ano que vem. E justamente por isso, cada sopro de desejo foi o mais sincero e visceral possível. 

Um dia após o outro, e tudo parecia ter sentido novamente. O carinho dos pequenos detalhes, o conversar tranquilo. O despertar vagaroso de quem já não espera muito e busca em cada pedaço de sol um passo além do que já foi. O silêncio compartilhado e a falação descontrolada. Bastou-me aprender a perceber quem está junto e que insistir nem sempre é a solução. 
Uma flor de papel amassada, uma caixa toda escrita e o fluxo acelerado na rua. Uma pedra tão grande e maciça fica tão pequena e destrutível quando é colocada frente a um vulcão, um mundo de tantos acontecimentos que mal começaram a, simplesmente, acontecer.
Você é feliz? O que você está fazendo pelo o seu futuro? Quem você admira? A genialidade de quem é julgado como pouco, como invisível e, na verdade, é muito mais, muito maior do que qualquer terno apressado que passa pelas ruas perpendiculares pensando em número e em negócios. E quem sou eu pra reclamar? E quem sou eu pra duvidar do que a vida tem pra me trazer? Eu não sou ninguém. E eu quero mais é que a vida venha, venha com tudo. Que satisfaça a minha sede ao mesmo tempo que me deixe louca por mais um copo. E que me lambuze com cada parte boa e ruim, pois só assim abrimos os olhos e percebemos que realmente, nunca vamos entender nada, absolutamente nada do que estamos fazendo aqui. E continuemos, nos perdendo e nos encontrando a cada esquina dobrada, a cada vez que olhar pro céu e pensar que sim, a vida está lá fora.
Três dias que renderiam um livro sobre o aumentar em metros de uma pequena existência. Sincera e visceral. 

sábado, 26 de novembro de 2011

Vinte e seis

Eu mal me aguentava de ansiedade nas coxias. Andava descalça pra lá e pra cá naquele chão frio e empoeirado, não conseguia ficar parada um minuto sequer naquele dia que estava sendo o segundo do conjunto dos três melhores.
A manhã começara me distraindo com algo entre física e geografia, num ar condicionado gelado que ardia os olhos de quem havia desacostumado a acordar tão cedo. O calor da hora do almoço triplicou dentro do carro parado no minhocão. O trânsito ia me atrasar e eu não podia. Salva por alguns minutos, cheguei a tempo de um grande abraço e palavras boas. Mergulhos na ressonância e eu já dava braçadas de encantamento. Quis sair rabiscando as paredes da casa toda mas, de novo, eu precisava correr.
De frente pro espelho do banheiro-camarim eu arriscava os passos que tinha de cor mesmo sabendo que algum faltaria no momento certo. Uma sombra preta atrapalhada, barulho de todos instrumentos sendo tocados ao mesmo tempo e pedidos inúteis de silêncio, eu não era a única ansiosa.
Pessoas mais atrasadas do que eu, vozes trêmulas e velas que não paravam acesas. Planos de uma sexta a noite que mal começava e passos animados no canto do palco prontos pro acorde combinado. Entrei, dancei, errei e não pude enxergar nada além de um palmo à frente e luz me ofuscando a vista. Estaremos juntos no ano que vem, abraços e o choro que não saiu.
Pela última vez no dia eu estava atrasada. Ainda deveria comer a pizza o mais rápido possível e mostrar que eu podia. Foi quando me lembrei que mal tinha pensado em tudo o que deveria ser feito, nem mesmo numa roupa poderosa ou um drink desencanado pra segurar na mão desatenta. Mas a imagem, no meio da pista, a minha mente estava decorando com esmero.
A pizza tardou a chegar e eu me vi desviando o plano perfeito. Poucos caracteres num pedido de desculpas e me vi esperando algo maior - que, na verdade, resume-se numa desimportância quase extrema. Você cogitou o vestido amarelo e acabou no casaco azul bebê. Eu fui de couro.
Conhecia aquela rua, mas não imaginava qual era quando li o endereço. A casa transbordava de gente, o portão estava aberto mas eu liguei antes de entrar. A sala de estar não estava menos abarrotada. O sofá arrastado, o tapete amarrotado e a mesa vazia. Todos os objetos deviam estar trancados dentro dos armários para evitar maiores problemas. Mas a medida de prejuízo foi pouca.
Ganhei um copo de plástico e reconheci os convidados na cozinha em meio a outros que já passaram do ponto. Dali eu podia ver, pela janela, o quintal, com tantos outros rostos que eu mal começara a decorar os nomes. Um rodo limpando o chão, e você batendo a cabeça na geladeira. Nos sentamos no aparador da sala de jantar, de frente para a mesa com sacos de salgadinho rasgados. Algumas palavras insistentes, convidados de uma festa de debutante e em dois flashes havia alguém em cima da mesa, gritando que a festa havia acabado. Gritou, apenas. A festa custou terminar.
Em pé na sala de estar conversávamos floridamente sobre coisas floridas. Algo entre os porta-retratos ao lado da televisão e os autênticos documentos de identidade que justificavam os copos nas nossas mãos. Apenas cinco sirenes de polícia depois alguém gritou que apenas os convidados deveriam permanecer na casa. Ou seja, a rua automaticamente sofreu com a superlotação de pessoas evitáveis, inevitáveis, substituíveis e insuportáveis.
Subimos a rua, nós três, para chegar ao táxi. Pessoas, que de tão conhecidas se tornaram todas iguais, fizeram piadas que voltamos para ouvir. Roupas de mulher, conversas virtuais, feriado, quinze dias atrás. Juntei as informações e entrei no táxi, aliás, um dos poucos legados sobreviventes daquela época. Tão logo cheguei em casa já me esqueci de tudo.
Mal lembro o que comentamos depois de tudo o que passou, aliás, se comentamos alguma coisa depois. Exatamente por não imaginar o que viria depois minha memória exclui os maiores detalhes. O caos de um dia que haveria de ser completamente diferente do que foi, refletido no que não esperávamos que fosse hoje. E agora você segura naquela mão e eu, mal me aguentando de ansiedade na coxia, espero pela próxima cena.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Maracujá

Foi numa dessas mordidas geladas que doem os dentes de baixo que pensei: poucas coisas na vida me lambuzam como um picolé natural de maracujá. Azedo o suficiente pra não melar os dentes de açúcar e doce o bastante pra não fazer careta feia. 
Descobri que gosto da vida-maracujá. Aquela que me dá sede pra beber uns dois copos de água trincando de tão gelada e deixa ferver qualquer temperatura ambiente. Sobrando apenas o palito melecado que arrepia só de imaginá-lo raspando, de novo, nos dentes de baixo. São os amores-maracujá que não precisam de corante algum. São amarelíssimos só por existirem. E me mostram cada uma das sementes que estalam nas mordidas. Cleck. 
Poucas coisas me são tanto na vida quanto um picolé de maracujá. Não tem meio termo e quem gosta adora. Não adianta colocar açúcar e dá pra percebê-lo de longe. Eu no palito.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Calendário

Parece um poster, quase um quadro ou um mural de avisos. É musical mas não canta. Aliás, só é musical para quem lhe é familiar. Parece tudo isso mas ele é muito mais simples: trata-se de um calendário.
Separando cada dia com um quadradinho me faz lembrar minha noção infantil do passar dos dias. Quando comecei a entender que dormir virava o dia, enxergava uma linha contínua cheia de quadrados, como uma amarelinha, e me via pulando cada um deles toda vez que alguém dizia "daqui três dias..." Minha imagem mental talvez não tenha mudado muito, e muito menos agora que eu realmente pulo os quadrados. Pulo e os desenho.
Quando paro pra pensar qual roupa vou usar em tal festa penso junto qual será o desenho para aquele dia. E eu nunca adianto as informações, o espaço só é preenchido após serem completadas as vinte e quatro horas correspondentes. Pego o porta-canetas, sento em frente ao calendário e penso o que quero deixar marcado daquele dia, ou como toda teimosia na minha vida às vezes escrevo o que devo e não o que quero. 


Registro as músicas tocadas repetidamente, viciadas no meu ipod e que são o que estou ou o que sou. Depois, tomo o cuidado em não repetir cores e tento desenhar. Tento, pois quando erro colo adesivos feios em cima que de nada adiantam por gritarem: "alguém errou por aqui".
As franjas beatlenianas e os trechos escolhem, sozinhos, dias para preencherem de vida, ou de suspiros, a cada mês. Me vejo imaginando quais serão os desenhos do mês começando e faço balanceamentos dos que estão pra acabar.
Apenas sento e penso no meu dia, no que pensei e ninguém sabe, no que falei e todo mundo ouviu. É repetitivo, decodificado e com mais letras que desenhos. É o meu lovesick diary, como não poderia ser diferente vindo de mim. 
O ano está acabando. Me restam pouco menos de sessenta quadrados. Preciso de um novo. Urgente.