sábado, 29 de maio de 2010

Maio

Eu me enganei. Pensei que somente a ausência refletisse na falta. Mas o excesso me trouxe um silêncio maior, e mais doloroso. Eu me enganei. Pensei que não houvesse sábado que não fosse cura, amigos que não servissem de consolo.
Com engano atrás de engano eu fui me esquecendo tanto de que você precisa viver seus outubros de sol, quanto que também pode precisar de julhos de frio. Há um ano eu revelei qual era o segredo, e somente agora você soube usá-lo, e talvez nem saiba disso. O desdenho não me é problema, congelar, duplamente, tudo o que eu poderia querer fica fácil quando não existem desequilíbrios.
O desequilíbrio me parece mais forte e verdadeiro que borboletas amarelas de Babilônia. E talvez seja o máximo que eu possa te dar. Mas se quiseres ainda tem meu calor.
O grande problema da realidade é crer tanto na crueldade e esquecer-se de fantasiá-la; É ver em tudo drama, de braços cruzados por um dia quente; O problema de querer que não existam mais domingos é perceber que as segundas-feiras são melhores que sábados.
Posso estar de olhos vendados no sol, mas isso significa que eles estão atentos no escuro: feliz é aquele ignorante que não percebe (e nem quer) nada.
Em tanta cegueira, os goles amargos que tomo só me fazem engasgar, e o descontentamento me sufoca em mais e mais silêncio. A minha falta de agradecimento transforma-se em repugnância por eu não ser corajosa o suficiente para sorrir um pouco. Eu traíria o que sou se pudesse fazer da água vinho.
Num antro pessimista e fundo já posso pensar nos outros sofrimentos que virão, nas flores feias que escolherão.
Não posso ser o que quero. Só consigo ser o que sou nessa fase ruim, nesse Maio ruim e argh.
Time cure hearts.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Maçã Vermelha

Certa vez me disseram que pouquíssimas pessoas conseguem se realizar inteiramente num ofício, não duvidei. Pelo contrário, custei a acreditar que poderia um dia conhecer uma dessas pessoas. Em qualquer ambiente de trabalho é automático identificar os infelizes. É ridícula a facilidade em encontrar pessoas que se sentem, literalmente, em um "tripalium".
Além dos completos descontentes, existem os conformados. Ou são aqueles que, depois de muito custo, se acostumaram com a rotina, ou aqueles que deixaram de ver prazer no que fazem após certa desilusão. Algumas pessoas passam a vida toda procurando o amor de suas vidas, ou até mesmo sem saber que não o encontraram. Com a vocação profissional não pode ser tão diferente.
Certas pessoas, por inúmeros motivos, não conseguirão encontrar sentido no que fazem, ou não encontrarão algo que faça sentido, e pior, podem não perceber que não são felizes no que fazem. Acredito que tudo também dependa do estado de humor também. Após um engarrafamento de três horas, uma reunião estressante ou prazos curtos para cumprir tarefas, qualquer um pode reclamar (baixinho ou aos berros) que escolheram a profissão errada.
Porém, poucos nascem com o dom de amar o que fazem, encontrando energia em difíceis tarefas, exalando brilho nos olhos. Algumas profissões são mal interpretadas, classificadas como castigo e penitência. Mas geralmente guardam uma essência rara, que somente quem ama o que faz pode enxergar e sentir.
Enfim conheci alguém que vive para o que faz. Cada dia é marcado por motivação, paciência, educação e otimismo. Cada nova aula é de fato uma aula de esperança de que o ser humano é capaz de construir uma convivência sadia e igualitária. Parte de cada um aproveitar, ou ignorar. Dependendo do ponto de vista tudo não passa de enrolação e desperdício de tempo. Pobre de quem perde a chance de sentir, tão de perto, a pureza de alguém que ama o que faz.
Aqueles treze minutos fizeram a felicidade de quem estava farto dos números, a alegria de quem sentia sono e a distração de quem se dispôs. Crianças falavam numa língua estranha, tijolos estavam sendo feitos enquanto a professora pedia que fossem à aula. Celular, torre? Substantivos simples eram abstratos e utópicos para aqueles pequenos, que mal podiam concluir o efeito de suas vidas na humanidade.
Boas metáforas, fortes mensagens e várias interpretações. Tudo corria como o padrão, até que fui surpreendida pela pausa na fala. Olhei na direção e lágrimas estavam sendo contidas, sem sucesso. Aquele impulso involuntário foi além de um bom coração ou sentimentalismo. Ele traduziu uma alma apaixonada, que não vê diferenças, apenas desigualdades. A alma pura de quem sonha com a mudança, tem como sonho formar bons cidadãos. Uma alma que chora por ver falhas, por ser desiludida e rasgada pelas garras da imperdoável verdade.
Um pedido de desculpas e palavras soltas antecederam um silêncio respeitador e rico. Encontro motivação no que você faz. Não comparo à perfeição, mas sigo de exemplo como é dedicar todo o seu amor a quem nem mesmo sabe disso. E quem agradece aqui, sou eu.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

It's about time

Não adianta insistir. Quando eu não quero uma coisa e acredito nessa ideia, nem mesmo uma outra ideia de que o contrário seria o melhor consegue parecer, para mim, suficientemente melhor ao ponto de passar a querer o que antes eu não queria.
Poderia ser mais simples que isso. Mas seria fingidamente prático da minha parte resolver tudo de maneira tão certeira. Por mais confusa, indecisa e contraditória que eu possa ser, no fundo sempre permanece um broto dormente que indica o que poderia ser fatal. Confortavelmente posso me excluir de toda a culpa por ser tão difícil: não estou sozinha. Talvez ajude perceber que o instinto natural do ser humano é fugir do que pode lhe fazer bem, desde que o bem esteja em completo desacordo com a vontade inconsciente. Ajuda, mas não resolve. Ter aceitado todos os conselhos e feito o completo contrário poderia me livrar do peso das minhas decisões. Mas ainda não resolveria. Inclusive poderia ser ainda pior.
E eu estava ciente de que essa responsabilidade viria a cair sobre meus ombros, eu assumi o peso por não saber ser inconsequente e precisar, a todo momento, encontrar sentido dentro de mim para o que faço. Esse mesmo sentimento de busca agora me perturba, e me faz querer tudo o que abri mão, numa simples vontade de tomar dessa água.
Talvez eu não fosse tomada pela ansiedade se te conhecesse melhor e soubesse como jogar o seu jogo. Talvez eu não fosse tomada pela angústia se te conhecesse menos, e não soubesse que você não usa jogos, e muito menos sabe usá-los.
O pacote de sementes, que encontro em todos os lugares, poderia ser útil se eu soubesse como usá-lo. Mas a ansiedade me cega, e eu já não consigo saber se estou em busca do que faria germinar, ou apenas do que faria florescer. As últimas flores brotaram coloridas, e poucas até mesmo perfumadas. Flores morrem, ficam murchas e perdem a graça. Um broto que germina está fadado a crescer, a realizar respirações continuamente e alimentar-se com fotossíntese. Mas eu não sei para qual efeito a terra está favorável.
Os feixes de luz coloridos, que antes passaram despercebidos, agora podem fazer a gema apical mudar de sentido. Tudo pode estar prestes a mudar, ou a permanecer tediosa e superficialmente igual. As flores costumam ser tão bonitas que cansam, tão perfumadas que enjoam. No meu outono talvez não haja lugar para elas. E está na hora, de fazer com que algo no jardim seja meu.